Primeira elegia de Lisboa

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Estou à janela e ponho
a imaginação no teu ombro,
meu belo país dos infinitos silêncios. Que não ardem.

Aqui, faróis e noite bolorenta.
Um resto de Lisboa sobre o asfalto
os que vivem de noite e os que vivem da noite,
Por que recordo a minha terra longe,
através da vidraça e do Rossio em nuvem?

Os olhos se dissipam, resta a memória,
a de oleosa linguagem, voando de seu nicho
onde tantas coisas se acumulam,
não podemos destruí-lo que nos destruiríamos,
vogamos ao sabor de uma pétala inesperada,
pois há um encadeamento de factos,
através dos quais
o espírito passa como a eletricidade num fio.

Assim eu começo a descer a distante colina,
as ideias batendo com fragor de coisa em coisa:
o caminho onde ninguém passa,
oliveiras entre sumagre e giestas,
socalcos esboroando-se,
cardenhos em ruínas,
barrancos onde a vinha e seu verde já campearam.
Que intempérie tornou esta paisagem lunar
ou que vontade amoleceu a vontade dos homens,
o ferro de suas mãos, até este mortório?
Que a história faça a história. A insolvente.

A breve lagartixa maravilha-se nos seus receios,
descreve a sua existência nos carrascos,
pedra a pedra, seu modo de desafiar os limites.
O mesmo acontece a estes faróis
que rasgam a noite bolorenta.
E àquele que desafia a noite.
Por isso também desço como quem sobe
pela facilidade de repor frescuras.

Ah belo Douro dos fartos pomares
florindo na gola da perspicácia dos senhores deputados!
Teremos mais vinho, teremos mais azeite,
teremos mais laranjas na desgraça matinal.
A cinza é o que há de mais certo?

Minha mulher dorme, também é vinha,
meu silêncio em seu leito, vou preenchê-lo,
deixando à janela esta memória selvagem.

Voz de António Cabral para o programa Perfil da RTP (19-10-1978) declamando uma versão do poema anterior à publicada em 1983 em Entre o azul e a circunstância.

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