Minha terra dos gumes silenciosos e tantas oh harpas azuis de ser.
De ser um dia.
Um dia caído. Ainda em rugas húmidas. Tecido que vem da noite dos tempos, com grandes sombras ainda dos pináculos. Feudais. Mas onde o vento, o do arco célere, suspendeu o seu canto de gladíolos.
Assim eu canto. Contra o vento, nesta concha sem mar.
Canto com os homens que cantam a nordeste das grandes searas.
O Tâmega entra em Vilarelho, desatento aos tornozelos das raparigas. Não se apercebe do filtro fúnebre da veiga, passatempo de Chaves, e só acorda nas crespas ravinas de Mondim. Fugir a tempo – eis a sabedoria.
Contar-te-ei mil histórias decepcionantes. Em que o vidro dos olhos. E o fulgor do suor com muitas bandeiras dentro avermelhando as insónias. Dir-te-ei, por exemplo, como se planta na raiva uma roseira.
Os homens cantam, apesar de tudo. Sobretudo. Que se há de fazer quando os olhos batem contra o arame farpado que certos senhores ocultam nas palavras? Cantam os homens bons labregos que só têm punhos para esmurrar as pedras dos barrancos, voltando à noite para casa com uma coroa de silvas e sumagre.
Não seria difícil acender os picos da montanha a dar sinal.
Contar-te-ei, minha filha, como o bolor se foi acumulando nas ideias, a semelhança que há entre um sepulcro e esta Câmara Municipal, o muito que têm para dizer aqueles indivíduos que, todos os dias, a horas certas, param numa esplanada da Avenida, cheirando a enxofre prematuro.
Pacientes bois da Padrela que ruminais a já ruminada erva solar. Dias nodosos no ainda fulgor ubérrimo da mata. Que exterminem caçapos e ginetes. Não podem, porque não sabem, exterminar o sol.
Quem invade e polui a boa terra dos nossos avós? As suas cinzas? Sua alma? Ah Douro, paraíso do vinho para os outros. Da memória escorrem dias vertiginosos.
É por isso, minha filha, que deves beijar o avô com mais ternura. Ele é irmão das cepas e
barrocais. E essa gema de luz que tens no olhar é a mesma que dá vida à nossa terra.
A mesma que há de incendiar de música os gumes ainda silenciosos da serrania. Um dia.
Voz de Rui Spranger, Blandino Soares e Rui David para a dramaturgia cénica Cabral, produzida no âmbito do projecto Palavras Cruzadas. O espectáculo teve lugar no dia 25 de Setembro de 2021 no Espaço Miguel Torga, em São Martinho de Anta, Sabrosa.
