Meditação com um menino

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Publicado em

“Aonde vás, niño?”
Luís Alberto de Paraná

1

Aonde vais, menino,
com esse olhar que se alonga,
alonga
como se fosse dar a volta ao mundo?
Quantos anos tens? Que idade
futura?
Quem te deu esses olhos
e pôs uma bárbara estrela
a devorar o silêncio?

2

Podias ter ficado na rua
com os outros meninos.
Há sempre um jogo,
um nada-mundo,
para os meninos como tu.
Mas preferiste fazer perguntas
e acompanhar-me na colina
donde se avista o sol
com o seu capuz de lâminas fulgentes.

3

Não há dor maior
do que responder a uma pergunta
com outra pergunta.
Eis-me de pé no musgoso rochedo
e sobre mim
o semicírculo do nada-saber
que me converte
num estranho sinal interrogativo.

4

A teu lado estou, menino
de olhos redondos e escuros
como duas cisternas.
Que sei eu da estrela errante
que, ontem à noite,
vimos cruzar lentamente o espaço?
Que sei das grandes cidades
que ardem longe,
longe?
Do amor e da falta de amor?
Da vida? Dos homens
que partem com ou sem destino e
não regressam?
Que sei eu, que sei verdadeiramente
para sossego,
do teu belo corcel de patas azuis?

5

Antes ficasses na rua
com os outros meninos.
O pensamento não é melhor jogo
do que o teu jogo de cabra-cega.
Terás tempo de saber, menino,
de saber tudo sobre estrelas,
cidades
e homens que vão e não voltam.
Se o souberes,
talvez as perguntas se transformem
em pesados cachos sanguíneos.

6

Dou-te a minha sabedoria
por um olhar
não contaminado de pensamento.

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