# António Cabral ## Posts - [Aqui, o homem](https://antoniocabral.pt/aqui-o-homem/): Nem Baco nem meio Baco!:Aqui é o homem,desde as mãos ossudas e calosas,desde o suorao sonho que transpõe as nebulosas.Montes de pedra dura,gólgotasonde os geios são escadas!Venham ver como sobe o desesperoe a esperança, de mãos dadas.É o homem.Isso é o homem.– Nem sátiro nem fauno –Uma vontade erguida em rubro gládioque ganha a terra, palmo a palmo.Vinhas que são o inferno,o únicoem que o fogo é a taça da alegria!Venham ver um senhorgrandioso como o sol ao meio-dia.Nem Baco nem meio Baco!:Aqui é o homemque nada há que não suportemas suporta e persiste.Aqui é o homem até à morte. Voz […] - [Ainda hoje se fala nesse dia](https://antoniocabral.pt/ainda-hoje-se-fala-nesse-dia/): Ainda hoje se fala nesse dia. Quesurgiu como bola de fogona sulfurosa montanha.Dies irae, dies illa. Distante, mas não tanto que se tenha apagado da raiva.Sobretudo os mais novos são os primeirosa recordar. Um hálito fortede Primavera excitava o húmido corpo da noite e alguns cravostrocavam na varanda suas palavrasrecentemente proibidas.À boca de muitos túneis, o mesmo corpo surgia lentamente inundado de tonsclaros. E passos musicais, firmes,falavam cada vez mais altopela incrível madrugada. Quem decidiu tão feroz descontentamentoe encheu de alecrim as urnasda memória? Até o ouro tinha um sabora enxofre. Velhas ideias ardiam. Quão doce espectáculo! As culpasreentravam no buraco […] - [A Poesia](https://antoniocabral.pt/a-poesia/): A POESIA é o que há de infinito em cada palavra. Por isso muita gente sente vertigens, mal se abeira dela. Que fazer? Intrigante é que alguma dessa gente tente afugentar as vertigens com uma praga, qualquer, a qual, bem vistas as coisas, tem sempre algo de mágico, de poético. Pergunta-se: Que fazer? Será tal tontería o reverso finito da palavra poética, formando com ela uma unidade? A ARTE LITERÁRIA (literariedade ou poeticidade) é o espírito à janela, encarnado na palavra oral ou escrita. Se encarnar na forma e na cor, temos a pintura; na imagem em movimento, o cinema; no […] - [À sombra das amendoeiras em flor](https://antoniocabral.pt/a-sombra-das-amendoeiras-em-flor/): Almendra, nome de amêndoa,perfume de amendoeira.Se não voltasse a Almendra,suspirava a vida inteira. É assim. Quem anda longe da sua terra não sossega enquanto não regressar, mesmo numas curtas férias. Como um “brasileiro” que eu conheci na minha aldeia: “Aqui sinto-me no Reino da Glória”. Ou Guerra Junqueiro: “ai há quantos anos…” As amendoeiras ficam na memória mormente se estão em flor. Também eu escrevi há anos, anos: As amendoeiraspassam um recibo cândido à terra.Página acesa de iluminuras.(Contrastam os olhos com tanta superfície). Dão-se bem por todo o Alto Douro, a não ser nas zonas mais frias, que lhe afectam o […] - [As pulhas e os casamentos](https://antoniocabral.pt/as-pulhas-e-os-casamentos/): - Ó CA-MA-RA-DA… A...A!... - Uma “pulha” - diz Aninhas mal disposta, olhar atento. - Embirro do Entrudo só por estas malditas “pulhas”. Põem ao léu a verdade e a mentira do bom e do mau… A este tempo já de outro ponto eminente, da Horta do Ferrão, para que os pregões se cruzem sobre o povoado, outra voz, também cavernosa, também arrastada, também através de uma buzina: - Que… é… lá - á - á? - [Mezinha de S. Sebastião](https://antoniocabral.pt/mezinha-de-s-sebastiao/): Professor que sou, fiz há tempos o plano de uma visita de estudo à Mezinha de S. Sebastião, em Couto de Dornelas no concelho de Boticas, visita que também podia efectuar-se aos lugares de Samão e Gondiães que ficam ali perto, já no Minho, onde o costume secular do dia 20 de Janeiro é quase em tudo semelhante. Pensava e continuo a pensar que entre as actividades escolares programadas no início de cada ano deve figurar o conhecimento “in loco” de tradições populares, proporcionando-se às turmas, que não tiverem essa oportunidade, textos, exposições ou registos audiovisuais sobre a matéria. De resto […] - [Reis ou Janeiras](https://antoniocabral.pt/reis-ou-janeiras/): Os Reis ou Janeiras cantam-se normalmente entre os dias 1 e 6 de Janeiro, sendo este o dia em que se comemora liturgicamente a Epifania do Senhor, que é a manifestação do Menino recém-nascido. Há, porém, lugares onde o costume tem o seu começo logo a partir do Natal, o que de resto proporciona mais oportunidades de visita às diversas famílias. O costume é antigo e pode aqui registar-se, por exemplo, o ano de 1892 em que João Alves, músico autodidacta, organizou um grupo em Ovar para ir dar as boas-festas, com versos de António Dias Simões, a casa de pessoas […] - [Oito dias de nevoeiro](https://antoniocabral.pt/oito-dias-de-nevoeiro/): Continuamos sob o nevoeiromas sabemos que o sol anda na serrae encosta a face morna à virgindade das coisas,tocando-a com um hálito muito doce. Aqui estamos sob um tecto mole,chumbo respirado ou a carnedum monstro espacial.Os lavradores assobiam para dentroe os mais necessitadosengolem os projectos com a saliva. Claro que ninguém tem culpa.Assim fosse no resto. Mas custaestar, há oito dias, sob esta pataviscosa, esta enorme sanguessugaque chupa até os tegumentos da alma. É como se estivéssemos debaixodum telhado prestes a cair.As crianças arqueiam os ombros;põem as mãos nos bolsos, à semelhançade isqueiros avariados nas gavetas;passam indiferentes pelos gatos,pelos pardais, e […] - [Hiroxima (a ciência de matar)](https://antoniocabral.pt/hiroxima-a-ciencia-de-matar/): Há muitas maneiras de matar:com estilhaçosou palavras,com uma fina lâmina,com um riso régiocom o arque se dá a respirar.Não sei qual era o processo mais eficiente dos Faraós.Entre os romanos a ciência estava desenvolvida:da volúpia de Nero saltavam as bestas ferasou a chama azul dos gládios; ao ave caesar!,começava a correr na arena um sangue fresco.Eficiente, sem dúvida!O padre António Vieiradisse a D. Afonso VI, na carta do suor e da liberdade,que, no Brasil, os portugueses também sabiam.Hitler foi mais humano: pôs a Wehrmacht aosgritose pronto!: Quem corre por gosto não cansa.Estaline e outros desenvolveram a ciência, criandoprocessosaté ali desconhecidos: inventaram […] - [Sábado em Setembro](https://antoniocabral.pt/sabado-em-setembro/): Pedras Salgadas Que seria da luz se não houvesse tantos silênciosincontidos? Contornamos a povoaçãode mãos dadas com um voo inclinado de estorninhos.A tarde perto do fim.E chegamos finalmente ao parque das Pedras Salgadas.Setembro até à cintura. Quase ninguém.E um resto de água estagnada no rio Avelames.Foi assim que eu e tu numa janela ferida,nas casas desabitadas, nas folhas que iam sobrandoou nas bolhas de água de campânula em campânulanos reconciliámos com o tempo.Os esquilos cruzam-se à nossa frente: os teuspassos a transbordar, antes de lá chegarmos. Vamos entender-nos: o isolamento de Rilkeno castelo de Duíno é outra coisa: o marprotegia-o dos […] - [As nossas aldeias](https://antoniocabral.pt/as-nossas-aldeias/): Ainda não sabias que forma de consolação te iria esperar, ao embrenhares-te pela montanha, de aldeia em aldeia. Estava frio e por ali andava-se aos cogumelos, andava toda a gente. Somos todos cogumelos. E comestíveis, afiança-te o pára-brisas do carro. Ai as nossas aldeias exíguas, as nossas aldeias conspícuas, as nossas aldeias oblíquas! As nossas aldeias. Serranas, amenas, ridículas, obscenas, ubíquas. À noite dormiria contigo a cena do entardecer que presenciaste nesse dia de campanha eleitoral: uma caravana a passar junto de certa casa, alguém a bater ao postigo e a vir de lá uma voz compungida: Nossenhor o favoreça, agora […] - [A Senhora dos Remédios](https://antoniocabral.pt/a-senhora-dos-remedios/): Em Setembro é a Senhora dos Remédios.Mãe, deixe-me ir à Senhora dos Remédios.Já tenho dezassete anos, já não uso trançase sei-me portar como uma senhora:já posso ir à Senhora dos Remédios.Aquilo é que é uma festa, mãe. Disse o Joãoque nem o Viso nem o S. Leonardo juntoschegam aos calcanhares da Senhora dos Remédios.Muita gente, muita gente, foguetes,arcos, música e ruas largas, muito largas.Fontes e Galafura são umas territas…Lamego, não. Lamego é uma cidade,disse o João. E o Santuário?Ah o Santuário é que é importante!Só o escadario tem mais pedraque a nossa terra toda junta.Muita gente de joelhos por ali acima:uns […] - [Dê-me aí lume, ó chefe](https://antoniocabral.pt/de-me-ai-lume-o-chefe/): Assim, com este pirótico chamadouro, fui abordado num areal de Vila Nova de Mil Fontes. E isso não me chamaria especial atenção, se durante a viagem, dois dias antes, ao longo de seiscentos quilómetros, rumo à foz do Mira (onde os cinquenta condenados para ali enviados por D. João II, na “mira” de povoamento, torceram o nariz - incrível!), eu não viesse a ser alvejado parecidamente, de paragem em paragem. O que me fazia sorrir. A mim e a três familiares, quando, depois de alertados, se puseram de ouvido à coca. - [Aquele São João](https://antoniocabral.pt/aquele-sao-joao/): O que ninguém viu, salvo uma senhora, e eu também não vi, ia lá ver essas coisas naquele tempo, foi aparecer um fantasma junto à cascata. Mas vamos por partes. Na rua em que nasci acendiam-se lamparinas na noite de São João. E também se deitava um balão, pelo menos. Era vê-lo a subir para as estrelas. E eu, ainda pirralho, pensava que as estrelas, sobretudo a lua, iam ficar contentes com a companhia e não lhes dava para caírem na rua em cima de nós. As lamparinas suspensas de meia dúzia de arames de vinha, essas é que eram o meu encanto. Grisetas de azeite a bruxulearem no fundo dum copo de papel de seda, as lamparinas atraíam os olhos da pequenada que luziam com elas. - [S. Gonçalo de Amarante](https://antoniocabral.pt/s-goncalo-de-amarante/): Por ter querido fugir ao Inverno, a grande festa de Amarante transferiu-se do dia de S. Gonçalo, 19 de Janeiro, para o primeiro sábado de Junho, conservando-se em Janeiro a celebração religiosa e diversificando-se em Junho os folguedos, sem esquecer a memória do santo popular. Popular a valer, especialmente invocado como casamenteiro das velhas, conforme reza longa tradição. Tal aura prodigiosa não se sabe lá muito bem quando principiou; ela, porém, tem-se mantido, com alguma apreensão das raparigas solteiras de cujas - pelo visto legítimas - queixas ficou a célebre quadra: - [Douro, meu belo país](https://antoniocabral.pt/douro-meu-belo-pais/): Douro, meu belo país do vinho e do suor,bárbaro canto arrancado à penediapor um destino que nos faz andarda alma para os olhos, dos olhos para alma!Douro, eh lá, uma nova era se anunciae traz aos nossos ouvidos uma promessa de rosas.Ouço já o crepitar das metralhadoras da paz,esses corações de aço que se chamam tractores.Ouço-os e uma visão de terra alegre,alegre como um tesoiro descoberto,rasga-se, sob o nosso espanto, na tua carne.Não mais as horas fechadas como punhose os morros inóspitos de carqueja bravia.O tempo estender-se-á na nossa esperança,claro, claro como um leito nupcial;nos valados correrá um sol caudaloso,fulminando, ao […] - [25 de Abril](https://antoniocabral.pt/25-de-abril/): I Dizer-te amor que a amendoeira do cômoro floriude novo e os belos cravos da nossa janelase debruçam agora das palavraseis uma verdade que tu compreendes melhor do que ninguémtu que me ajudaste a levantar um pouco da noitepara pétala a pétala construirmos o tempoa amendoeira floriu e a nossa casa ergue-seao lado das outras com sua nuvem acesao pensamento varado de azul misturando-se com a chuvatrepando às árvores pondo uma flor em cada coisa II Este país de sonhadores parece ter acordado.Dizem que um dia em Sagres o Infante bebeu o infinito,Deus ou o Mundo, e nos intervalos da digestãomandou […] - [Aqui, Douro](https://antoniocabral.pt/aqui-douro/): Aqui Douro. O Paraíso do vinho e do suor.Dum rio no Verão ossudo e magrocomo as pessoas,quando a alma se escoa pelos poros;rio também barrento, a cor da terra,para que a alma seja inteira;rio das grandes cheias, do abraço finalde troncos de homens, de árvores e sonhos;dum rio agora jovem: a água demorao seu espelho nas barragens, e os barcoscheios de olhos filmam a históriadum deus desconhecido. Paraíso dos montes sobre montes,agressivos mas belos,montes que se agigantam, ombros vivosdos violentos ventos e do sol,e montes que se dobram e desdobram com os ribombos,abrindo ribanceiras e fundões.Oh Cachão da Valeira, sepultura de […] - [Meu pai, um como tantos](https://antoniocabral.pt/meu-pai-um-como-tantos/): Hoje, o meu pai trazia do campogrinaldas de espinhos. O suor escorrendopela barba crescida. E botas e calçasempoeiradas. Como chuva de fogodesabava, enorme, o sol.Outros homens passavam silenciosos.Meu pai desceu dos ombros o atomizadordonde um pingo azul de sulfato caía.E, ali mesmo, amaldiçoou a terra,ele que a ama como se fosseminha irmã. Ó meu querido pai,o teu suor escorreu-me no pensamento.Guardo-o. Deixá-lo-ei envelhecercomo o nosso melhor vinho. Mais tardebebê-lo-ei, orgulhoso de ti. - [Símbolos de Carnaval](https://antoniocabral.pt/simbolos-de-carnaval/): Toda a cultura é simbólica. O que é preciso é estar atento ao significado dos símbolos. Vejamos alguns. 1. Os carnavais da sora Professora Sobretudo nas aldeias, era interessante ver a ganapada em cortejo, a cantar e a tocar no que vinha à mão, rumando à escola onde a sora Professora (ou professor, claro) aguardava com sorrisinhos brilhantes. Por vezes, era pela Páscoa ou fim de ano lectivo. Em S. Lourenço de Riba Pinhão era no Carnaval. Ora pois, a oferta dum cabrito para ganhar forças para a Quaresma. – Hoje já se não usa – dizem-me. – Os tempos são […] - [A confraria gastronómica D. Leitão](https://antoniocabral.pt/a-confraria-gastronomica-d-leitao/): Como sei de uma confraria etnogastronómica (Os Pyjamantes - tema já em agenda) que assina o ponto uma vez por ano, comendo-se e bebendo-se, cantando-se, contando-se, não digo para o ano inteiro, mas quase, despertou-me a atenção um texto gaiato que acabo de ler numa fresca revistinha de Pampilhosa do Botão. A dos caminhos de ferro, a que fica ali a dois passos pantagruélicos de Coimbra. Pantagruélicos, pois - de Pantagruel, aquele herói do francês Rabelais (séc. XVI) que gostava de mesa lauta e vinhos cintilantes. - [Podando](https://antoniocabral.pt/podando/): Janeiro.Croceiros.O ventoque passa.Que passana vinha,na alma.Trespassa. Janeiro.Croceiros.O ventoque gela.Que gelapalavrase passos.Regela. Janeiro.Croceiros– três homenspodando.Podandovideirase ideias.Podando… - [Um cálice de Porto](https://antoniocabral.pt/um-calice-de-porto/): É esta a pipa e prefiro que sejas tu a encher os cálices. Assim. O vinho sobe na fina mangueira sorvido pela tua boca: o horror ao vácuo. Lei da física, a lei do amor. Pouca, a luz da loja começa a juntar-se à dócil turbulência e leva as sombras para o tecto onde ficam suspensas como seda. Ouves o sol da vinha velha ressoar nas palavras, o pai e a mãe, há tantos anos, aqui ao pé de nós? O vinho é uma ausência de pássaros incógnitos que, um a um, começam a pousar-te no cabelo. in O homem que […] - [O vinho](https://antoniocabral.pt/o-vinho/): UM HOMEM EMBRIAGA-SEquando tem muito que dizer e pouco ou nada que fazer. Pelo menos nesta aldeia é assim. Entra ele em casa, olé, rosas por todo o corpo, aproxima duas cadeiras e diz à mulher: estou bêbedo. Ela obedeceu. E uma osga, toda olhos, suspendeu a travessia da cal. EU QUERO PEDIR À EMBRIAGUEZ QUE ME FAÇA ESQUECER QUE NUNCA SABEREMOS NADA– disse-o Omar Kahayyám, poeta persa do séc. XII. A razão perde-se no labirinto e só o coração irá encontrar a saída. No antes e no depois foi sempre assim, mau grado a sabedoria dos juízes, sejam eles quais […] - [Alguns utensílios agrícolas](https://antoniocabral.pt/alguns-utensilios-agricolas/): A António Manuel Pires Cabral Podoa Corta em asa, intensa eoblíqua, onde a mão humana. Não tem ideias, poréma mão a torna calculada. Então a vida sobreo instantâneo suporte abre caminho. A vida contra a vida re-partida à espera de re-ser. E também simbólica, frontala turvas ideias. Enxada Olhos em bico revelandoo que na terra há de sol. E a terra no desvincoem treme-luz de insectos lhe responde. Como ela cospe inter-mitente raiva acumulada! Uma luta feroz com a relvade emaranhadas intenções. À noite, no silêncio emoliente,tens o ar de uma deusa multimãe. Tractor Cantas na ravinaa vitória do homem sobre […] - [A pequena exploração agrícola](https://antoniocabral.pt/pequena-exploracao-agricola/): O Douro não é só vinhedos espraiados nas ladeiras voltadas ao rio e nas zonas mais altas, frescas e menos acidentadas: é também a quintarola ou granja de pequenas dimensões, o quintal à beira da casa de habitação ou dela afastado - o praediolum dos romanos. - [Ao correr da pele](https://antoniocabral.pt/ao-correr-da-pele/): A IDADE, o que tem de poço, intimida, quando nos sentimos envelhecer, quando os números são infinitamente povoados. - [Pós 25 de Abril](https://antoniocabral.pt/pos-25-de-abril/): O 25 de Abril foi caindo aos poucosdas páginas da memória como candeeiros de rua. Os que o não viram mal se apercebeme entre os outros há quem ache natural,tanto mais se alguém o recorda com um cravoao peito. De Sagres aos Cornos das Alturas, passandopor S. Salvador do Mundo,ouve-se um rumor, espécie de abelhas,algumas dentro e as mais, expulsas da colmeia,estas aliás muito semelhantes aos que, descendoa favorável corrente, tivessem de puxaro barco rabelo à sirga,a fim de proporcionarem aos convivasuma boa deglutição da paisagem. Só o voo da garça teima em unir as duas margenscom o verde rubro pendente […] - [Holograma](https://antoniocabral.pt/holograma/): Na rua, mesmo rente a uma casa, havia um papelinhorasgado de um livro a que ninguém prestava atenção.Ora, durante a noite, começou a ganhar raízes e a crescercom a frescura e a cor duma papoila em cujas pétalasse podia ler, mas ninguém lia: poemas. Ao outrodia, o empregado da Câmara ia varrer aquilo parao lixo. Uma criança, porém, antecipou-se e levou a florconsigo. Ao chegar à escola, reparou que tinhaum livro na mão. - [Matança do porco](https://antoniocabral.pt/matanca-do-porco/): Gordo, gordinho, matulão, o porco chega ao terreiro, conduzido por aquele que havia de lhe pôr termo aos dias de ceva. Mirones, apesar do chuvisco frigidíssimo. Motivo para estar ali um garrafão encarapuçado por um púcaro de alumínio. «Vai um?» «Claro!» Dantes, já lá vão uns anitos, quando eu assistia ao ritual, reparava em um ou dois molhos de palha que se destinavam a faxucar o animalzinho; agora olho, com alguma nostalgia, para uma botija de gás. O fumo da palha tinha outro encanto, carregada que era de símbolos sacrificiais. - [Poema de Natal](https://antoniocabral.pt/poema-de-natal/): Os desempregados e os que andam na guerra, aqui ou no Afeganistão, passam um Natal semelhante: perderam as certezas. O tempo não corre e congela nos livros, confundindo o futuro com o passado. Só se ouvem as gralhas. Europa, Europa, tão distraída me saíste! in Semanário transmontano (21-12-2001) - [Carta para um amigo da cidade](https://antoniocabral.pt/carta-para-um-amigo-da-cidade/): A vida aqui decorre normalmente.Nada de novo ou pouco.O tempo anda na montanha,circula como um bicho em fruto oco. Que hei-de eu dizer? Que faltambraços de homem para o campoe há quem se ponha a entristecercom sua inútil razão? Não sei se entendes. Estamos em Dezembroe por aqui apanha-se a azeitona.Como os braços não chegam,formam-se limos no fundo dos olhos. É muito natural que não entendas.Aí na cidade os hábitos são de vidroe fala-se de nós como quemespreita a neve detrás da gelosia. Mas a vida decorre normalmente.De tarde iludi as férias com duashoras passadas no olival.Suei. Provei que tinha músculos. […] - [E o rio](https://antoniocabral.pt/o-rio/): E O RIOquem o vê erguer-se do leito e pousar as formosas vogais, de vinha em vinha? O rio tem a forma dum sexo em pleno voo. - [O caldeireiro](https://antoniocabral.pt/o-caldeireiro/): Quando o tempo começa a tartamudear e os primeiros calafrios ameaçam a folhagem, o caldeireiro assoma à boca da rua. Aí vem ele. Da mão pinga-lhe uma sertã em cujas costas martelinho ligeiro, repenica, como se ela estivesse com soluços. Todo o bicho-careto, especialmente o gado fraldeiro, mete o nariz por janelas e janelos, atiçado pela aleluia e a fazer contas de cabeça a potes, tachos, almotrigas e outros lataréus. – Aí está ele. – Ele quem? – pergunta a Isaltina que é um não-te-rales. – O caldeireiro, posma. – Ele passa aqui, minha lambisgóia – responde no jeito de espantar […] - [11 de Novembro](https://antoniocabral.pt/11-de-novembro/): Naquele magusto, já estava o sol a pôr-se e a gente continuava a dançar à volta do borralho. Alguém aproveitou o contra-luz para tirar uma fotografia onde se vê a alma de uma rapariga celta a voar para o castro. Há quem diga que não, que é apenas um efeito luminoso, aliás interessante. Fica a dúvida. A luz perto do fim tem muito que se lhe diga. - [Aos pequenos viticultores durienses](https://antoniocabral.pt/aos-pequenos-viticultores-durienses/): A VINHA, coisa breve. Fica num altinho. E o ti Quim vê ao longe o Marão onde se afundam muitas estrelas brilhantes e é por isso que aí nascem os ventos. Se tossir, levanta-se uma revoada de estorninhos. Estorninhos, ou melhor, um cacho de tinta roriz que solta os reflexos impacientes. O GATO dormira no escano feito vinha, mesmo ao lado do pensamento velho do ti Quim, e um armário rangia, escrevendo a noite a giz. O comércio vai pagar mal as uvas, não compensando o trabalho. E até a luz se esconde atrás das nuvens como se estivesse a aparafusar […] - [Jogar é um direito da criança (1)](https://antoniocabral.pt/jogar-e-um-direito-da-crianca-1/): Às vezes, os pais ficam muito surpreendidos porque deram ao petiz um cavalinho com rodas e ele, às duas por três, em vez de montar no cavalinho, encarrapita-se numa cadeira, pó, pó!, aí vai ele como o Ayrton Senna. Explicação: quando uma criança já não encontra qualquer novidade num objecto, abandona-o. Pode também acontecer que, ao abandoná-lo, transfira para outro objecto a sua função (a cadeira a servir de cavalo) ou uma função associada (a cadeira a servir de automóvel). A própria cadeira passa a ser cavalo ou automóvel, porque a criança já não vê nela nada de novo, porque tudo […] - [Poema com Mário Cesariny: como uma canção desesperada](https://antoniocabral.pt/poema-com-mario-cesariny-como-uma-cancao-desesperada/):   Prémio Literário António Cabral 2013 estou a dizer-te que já todos os poetas inventaram o amorque nas minhas mãos o amor é apenas silêncio que vaza que o amor não pode ser mais belo do que este verso:antes de conhecer-te já eu te ia beijar a tua casa estou a dizer-te que se tinha que te escrever uma carícianenhuma palavra há que não tenha quebrado já a sua asa talvez acabes por perceber na doçura de todo este carinhoque não tenho mais música por onde possas subir até mimou madressilvas para te estenderes por todo o meu verão estou a […] - [O homem que fugiu com o rio às costas](https://antoniocabral.pt/o-homem-que-fugiu-com-o-rio-costas/): Nesta aldeia ainda vivemalgumas pessoas queao olharem para trásse codificam nas crençasinsolúveis como areiasque umas sob as outras ficam. Feiticeiras continuama dançar na encruzilhada,algumas com dentes sãospilhados a moribundos.Aqui havia um moinho,ali um lagar de xisto,naquele ramo de freixoum pescador se enforcara.Sexta-feira, dia 13,sexta-feira, dia 13– é assim todos os dias. Que puta de vida esta!– disse-lhe um dia o maridoque voou de monte a monte,levando às costas o rio.Ninguém diga que está bemenquanto se desoprime.Deixou-lhe um filho ranhoso,outro ainda na barriga.Quem não tem mais que deixara isso ao menos se obriga. Um juiz de mini-saiaqueima em Lisboa as pestanasna pira […] - [Bruxos & curandeiros](https://antoniocabral.pt/bruxos-curandeiros/): Não sou dado a acreditar nos poderes ocultos de bruxos e curandeiros, relativamente à solução de problemas psíquicos e orgânicos que a ciência não resolve ou tem dificuldade em resolver. Mas entendamo-nos: lá que certas pessoas, que os consultam, veem os seus padecimentos desaparecerem ou atenuarem-se – disso é que eu não duvido. E, claro está, dou a muitas dessas curas a explicação do querer aliado à fé, entendendo esta como S. Paulo: “A fé é o fundamento das coisas que se esperam e é argumento das que não se veem”. Quando se tem fé, mesmo racionalmente infundada, na capacidade ou […] - [Casamento de arromba](https://antoniocabral.pt/casamento-de-arromba/): Quando cheguei, dei logo conta de que o meu 2CV destoava dos automóveis de luxo que reluziam no largo e pelas ruelas do Fiolhoso (até ouvi um puto dizer, mãos nos bolsos e nariz apontado: “Ah, este é o melhor!”), ruelas onde também velhas casas de blocos de cantaria, meio destelhadas e de portais caídos ou em via disso, destoavam de moradias azulejadas, garridas, com tratores a apanharem o sol em amplos logradouros. A aldeia fica num planalto do concelho de Murça e quase se liga à Levandeira e ao Cadaval que lhe pertencem como freguesia. Algum vinho meio verdasco, milho, castanhas e batatas. - [Um passeio no Rio Douro](https://antoniocabral.pt/um-passeio-no-rio-douro/): Terminou o nosso passeio. Douro arriba, quando o autocarro passou a cavaleiro de Mazouco. De Barca de Alva até ali, com tantas curvas entre vinhas, olivais e manchas de um verde esmaecido de amendoeiras, alguns laranjais também, estes de cor mais pimpona, ao aconchego do regadio, impressionou-me o Penedo Durão com seu arreganho para terras de Castela, a recordar velhas quezílias. Dizem-me que há por ali abutres, talvez águias, mas naquele entardecer do dia 16 de Junho, não vi nenhum desses passarolos altaneiros, como se nos quisessem dizer que a nossa visita não lhes interessava por aí além. A contrastar com […] - [Na noite de S. João](https://antoniocabral.pt/na-noite-de-s-joao/): Na noite de S. João,roubei-te os vasos, Maria.Ficaram-te dois no peitoque hão-de ser meus, algum dia. - [Ratos no sotão](https://antoniocabral.pt/ratos-no-sotao/): A Francisco Fanhais Esta gente não reparano que vai à sua frente.Nunca pára nem compara.Ai esta gente que gente! Outros escrevem a história;esta gente aceita a escrita.Roubam-lhe tempo e memória.Esta gente nem medita. Andam ratos pelo sótãodo nosso belo país.Esta gente não dá conta.Nem se fia em quem lho diz. De tanto não ter sentido,esta gente nada sente.Não sente os ratos no sótão,Ai esta gente que gente. - [Homo, mensura](https://antoniocabral.pt/homo-mensura/): Eu não irei convosco, puros habitantes do sonho.O meu lugar é aqui, entre os homens:falo a sua linguagem, sinto as suas dorese tenho a consciência bem agarradaà carne e ao espírito – os dois poçosem que nasce, desagua e se debatea impetuosa água do meu pensamento. Que me importam inimagináveis galáxiase os poemas feitos apenas de palavras?Reflictam-se as galáxias em nosso espíritoe sejam carne da nossa carne.Encham-se os poemas do sangueque nos turva, perturba e inunda as veias.A única poesia em que acredito é a do homem. - [Padre Max](https://antoniocabral.pt/padre-max/): Ver os destroços do automóvel,o teu corpo ainda. E os dias cumprindoo arco, oh borboletas de fogo!Quem se atreverá a plantar-te na memória? «Foi melhor assim» – disseste, dentro jáda inconsútil ideia oferecida.Era quase manhã: anoiteciao teu espírito visível nas estrelas. Digamos que não morreste, a bombatraiçoeira explodiu, continua a explodirdentro deles, dos inimigos do povo. Aleluia! Sepultemos a rosa insuportável.O que é preciso é recompor o silêncio,dizer ao vento: sopra, Maximino. - [Páscoa](https://antoniocabral.pt/pascoa/): Toda a ressurreição é uma passagem. Ressuscitar é mudar de lugar. O que é possível ver no que se não vê. O milagre. E o cientista quântico é um pescador de milagres. De ostras. Há ostras por toda a parte e em cada uma delas uma pérola. A ciência e a religião, imbuídas de arte e filosofia que são a flor do pensamento, aproximam-se cada vez mais uma da outra. Do Apocalipse. O Apocalipse não é um livro de morte mas de vida e, quando tivermos olhos para ver, vê-lo-emos como um rio. A poesia não tem fronteiras. Obrigado, Zé. - [Onde se fala de mortos vivos](https://antoniocabral.pt/onde-se-fala-de-mortos-vivos/): Quando a noite invade brejos e fundões, encruzilhadas, descampados, casarões e especialmente os cemitérios, a imaginação humana tende a ser também invadida pelo sentido do oculto e pela insegurança, o que não raro está na origem de bizarras ilusões e alucinações em que falsamente se percepcionam coisas do arco da velha. “Era a mão dele, fria como o gelo, que me apertava a garganta. Até acordei sobressaltada, banhada em suor”. “Olha, foi ali: a feiticeira saiu-me da esquina, pôs-se a dançaricar e a rir-se de mim a descarada”. “O lobisomem vinha com a aguilhada, em cima de um cavalo que corria a toda a brida; foi por Deus que me desviei, se não furava-me os olhos”. “Eu vi-o, eu vi-o, juro-te: dois olhos a arder e as manápulas a virem para mim; era o ti Belisário a sair da campa: lá tinha coisa que o chamasse, porrinha!, não sei como escapei”, etc. - [Sob os álamos](https://antoniocabral.pt/sob-os-alamos/): Generalidades, generalidades… Só a poesia é gloriosamente múltipla: o relevo de cada ser, uma gruta. - [Flores para o Zé da Naia](https://antoniocabral.pt/flores-para-o-ze-da-naia/): Entra. Vivo nesta casa, a minha tebaida. A bem dizer, mais no prédio que na casa. E agora vais beber um copito do meu tintol, isso é que vais. Vais tu e vou eu. Por estes pucarinhos de barro que são ainda do tempo da Maria Cachucha. Que sim? Ora, à saúde dos velhos tempos. De quando andávamos naquela escola de sobrado meio rilhado do bicho. E à saída jogávamos ao rou-rou, à roça e ao tiroliro. Isso é que eram tempos! Os velhos trabalhavam e nós brincávamos. Ai tu ris-te! Então lá vai outra pucarada. Tirada aqui do pipo. Que […] - [A neve](https://antoniocabral.pt/a-neve/): Veio de noite, silenciosa,E tentou abafar, sob a penugemDas asas, o clamor desta miséria. Mas o vento soprou, enrodilhou-aE deixou-aEnsanguentada, à beira do caminho. E foi aí que o sol, doido varrido,A apunhalou,Comendo-a ferozmente, voluptuoso. - [O Orfeu rebelde](https://antoniocabral.pt/o-orfeu-rebelde/): Quando em 1962 escrevi sobre ele um texto que posteriormente vim a publicar, não descansei enquanto não lho mostrei na sua casa de S. Martinho de Anta. Estava acompanhado da esposa e eu lia, prescrutando-lhe os gestos, que sempre lhe rebentavam de dentro, como renovo de mato bravio. Sabia já que era um poeta indomável e, dado que eu lhe estudava as relações com a terra e a divindade, revelando-lhe quanto a esta uma atitude de suspeita, radicalizada frequentemente num desafio feito de afronta e negação, tive de o enfrentar, de lhe ver os olhos bem acesos como gumes e um […] - [De e sem](https://antoniocabral.pt/de-e-sem/): A política de cera e a cera da política.A solução sem governo e o governo sem solução. - [A Festa dos Rapazes](https://antoniocabral.pt/a-festa-dos-rapazes/): O Padre Belarmino Afonso conta que, num dia 26 de Dezembro, chegou a Deilão (concelho de Bragança) para celebrar missa, ficando intrigado com os choros e grande barulheira que ouvia na rua. Suspeitando que se tratava de brincadeira dos rapazes da aldeia, acercou-se do local donde vinha a algazarra e pôde apreciar um simulacro lúdico de funeral em que os acompanhantes, com trejeitos bizarros, gritavam a bom gritar, gritos que traziam dentro de um riso de chacota e folia. Numa escada a servir de esquife via-se um rapaz, o morto, seguido de outro rapaz grotescamente vestido de padre que, com a seriedade possível, recitava um “reco eterno” (um requiem) de latim estropiado e ajustado à circunstância. De quando em quando, aspergia o infeliz com água benta, ou antes, com uma água qualquer tirada de um charco e posta num caldeiro velho. - [O Diabo](https://antoniocabral.pt/o-diabo/): No Auto de Natal o actor que fazia de Diabo levou tão a sério o seu papel que, após divertir a assistência, desprendeu um cordeirinho do Presépio e fugiu com ele. Ainda houve quem o perseguisse, mas o marau, enfarruscado, cornos e rabigo, arreganhava a dentuça que cuspia lume. Porra, deixá-lo ir. - [Os formigos](https://antoniocabral.pt/os-formigos/): O automóvel chega às Taipas, desliza por uma rua prolongada entre muretes e coisas verdes e pára, segundo o combinado, junto do tal limoeiro. Uma pena que aquele pinheiro manso, farfalhudo como um discurso, não estivesse também ao alcance da mão. - [S. Nicolau e o Pai Natal](https://antoniocabral.pt/s-nicolau-e-o-pai-natal/): Que o culto de S. Nicolau acabasse por dar origem ao Pai Natal tem a sua razão de ser: a tradição imaginou-o e iconografou-o como amigo das crianças, como se pode ver na catedral do Funchal em que é representado com mitra e báculo (bispo que era) e com três meninos ressuscitados numa tina (obra da Escola Portuguesa, 2.º quartel do séc. XVI). Os saxões chamaram-lhe Santa Claus (corruptela de Sanctus Nicolaus), tomando-o como prodigioso benfeitor da pequenada. A designação propagou-se a outros povos nórdicos, caso dos finlandeses, cujas terras nevadas são um ambiente propício a este mito invernal. Afrancesando-lhe o […] - [Os Pyjamantes](https://antoniocabral.pt/os-pyjamantes/): Existe em Vila Real, desde 1956, uma confraria que não tem outra finalidade do que comer bem, beber melhor e encarar a vida com um sorriso permanente, pelo que os pyjamantes se reúnem uma vez por ano, convencidos de que os anos são sempre muitos no calendário da fraternidade em festa. O sábado que precede o 1.º de Dezembro é o dia que inicia e que termina, para iniciar sucessivamente, a folia que se deseja e tem sido um meio de comunicação agradabilíssimo. Todos os anos há sempre um ou mais neófitos que, num dos momentos mais significativos do ágape, propiciam […] - [Leonor](https://antoniocabral.pt/leonor/): A Leonor continua descalça,o que sempre lhe deu certa graça. Pelo menos não cheira a chulée tem nuvem de pó sobre o pé. Digam lá se as madames do Alvorsão tão lindas como esta Leonor. Um filhito ranhoso na mão,uma ideia já podre no pão. Meia dúzia de sonhos partidos,a seus pés, como cacos de vidros. Diga lá se as madames do Alvorsão tão lindas como esta Leonor. Música e interpretação por Xícara - [Dia de S. Martinho](https://antoniocabral.pt/dia-de-s-martinho/): I S. Martinho, S. Martinho,S. Martinho milagreiro,Dá-me um saco de castanhas,Pois tu és um castanheiro. Se não fazes um milagre,Terás de vender a capa,Porque lá diz o ditado:Quem tem capa sempre escapa. REFRÃO Dá-me castanhasbem assadinhase, a acompanhar,duas sardinhas. Quentes e boas,dá-me castanhasdos castanheirosque há nas montanhas. II S. Martinho milagreiro,Vamos fazer um negócio:Dás-me um saco de castanhasE eu rezo-te um pai nosso. Um pai nosso muito grandetenho mesmo de rezar.Gosto tanto de castanhas!Vou comer até fartar. REFRÃO Dá-me castanhasbem assadinhase, a acompanhar,duas sardinhas. Quentes e boas,dá-me castanhasdos castanheirosque há nas montanhas. in Notícias de Vila Real (7-11-2001) - [Magustos](https://antoniocabral.pt/magustos/): Quem entre o dia de Todos os Santos e o dia de S. Martinho, sobretudo neste, não participou num magusto em plena montanha, sentindo-se livre como um animal bravio, como ele cheio de olhos para as coisas em volta, a projectar uma sombra partilhada pelos convivas e pelo vento, bem pouco saberá do que é um magusto. O que não quer dizer que não goste de castanhas e vinho novo e não se sinta bem a saboreá-los numa adega, na rua ou num restaurante, em família, só ou com os amigos. Dizem Jung, Bachelard e outros que no fundo de cada […] - [Na terra, camponês](https://antoniocabral.pt/na-terra-campones/): Na terra, camponês, vejo-te derreado ao peso de tanto azul, como o chasco que não se deixasse nomear e andasse de ramo em ramo dentro do carrasco, sem descobrir uma saída. Morreremos ambos ao som da mesma flauta, pois ambos temos de cultivar uma vinha em declive. Escrever é também uma forma de crispar as mãos. Ou escapulir-se na parede como o lagarto, mal se aproxima a chuva? - [O verde](https://antoniocabral.pt/o-verde/): O verde é a cor mortal por excelência, por isso mondar as campas rasas é sabê-lo de cada vez, avivando a imagem de quem ali está; e os jazigos de pedra não se apercebem disso. “Anima bella daquel nodo sciolta”, disse Petrarca. Verde, eis a verdadeira cor da palavra poética. Ninguém a lê sem mondar a erva que foi crescendo, ainda bem. Quando passares aqui, arranca uma ervinha da minha campa. in O homem que fugiu com o rio às costas (inédito) - [Versos que parecem uma brincadeira mas não são](https://antoniocabral.pt/versos-que-parecem-uma-brincadeira-mas-nao-sao/): O Douro gera vinho e pedra; vida – – pedra é o que gera: pedra nua bem os- suda, - [O prazer lúdico](https://antoniocabral.pt/o-prazer-ludico/): Encarecer a necessidade do prazer lúdico num tempo em que a crise económica parece avassaladora, sendo fracos os indícios de contenção, afigurar-se-á como jogo perigoso. É certo que o industrialismo expansionista, apesar de ameaçado, ele que se julgava na posse do segredo da galinha dos ovos de ouro, tenta recompor-se, fazendo orelhas moucas aos arautos da terceira vaga e da pós-modernidade, mas os planos e acções de recuperação, com destaque para os despedimentos, têm gerado ansiedade, quando não a revolta, dos trabalhadores. Este facto, aliado ao crescente aumento da população planetária, que já vai nos seis biliões, levanta graves problemas sociais. […] - [Paisagem cultural duriense](https://antoniocabral.pt/paisagem-cultural-duriense/): Estou há meia hora debaixo da ramada, a quarenta e cinco passos do portão, atento ao que vai na rua. Ainda não vi um homem a cavalo: vê-se cada vez menos. Pouca gente e alguns carros — sinal de quê? Um rapaz de pólo sanguíneo atrai-me a atenção: atira com uma bola ao ar, não a apanha por qualquer motivo e desaparecem os dois. Carros e pessoas — invólucros, uma espécie nova de cartuchos que fossem vertendo a mercearia. Aquela mulher tem o andar cheio de rasgões por onde se escapam as manhãs. E duas crianças chilreantes param um pouco e […] - [Juízo final](https://antoniocabral.pt/juizo-final/): Prémio Literário António Cabral 2011 Eu entendo que a arte é um refinamento do choque,vai-se a ver e tudo está no colapso da infância, esse sulcoonde o corpo se fere pela primeira vez e os olhos,restituídos à dimensão do escuro, navegam. A infância é o fulcro de todas as artes, sejam as do ferro,das cores, ou as do estanho, e persegui-las é interrogaras nuvens ou o fluxo que se distende na música. A minha boca amplia-se nesse processo rupestre de sedimentaçõese sinto em mim os pigmentos necessários para compora intrincada rede de sortilégios onde o que fica ditoiguala o por dizer, […] - [Vilar de Perdizes](https://antoniocabral.pt/vilar-de-perdizes/): Da relação com o desconhecidovive o Congresso de Medicina Popularem Vilar de Perdizes.Um lacrau passeia douradamenteno antebraço do curandeiro. E certamulher, que havia urinado a sabedoriadeste mundo e do outronuns codessos, deixa-se morder.O cancro resistirá ao veneno (sabe--se lá) mas a flor de codessoirá com ela de noite para o sono. As bruxas actuam, recolhidas:a uma, seu cristal,vi eu fazer voar eucaliptosno peito de uma rapariga triste. A eloquência escolhe a salados congressos e vende cartuchinhosde ideias. Há quem acredite e quemnão acredite. O que é precisoé um sorriso na dúvidade cada dia. Pois da relaçãocom o desconhecido vamos sabendoa flor […] - [Emigrantes](https://antoniocabral.pt/emigrantes/): Portugal cheiinho de emigrantes. A rebentar pelas costuras. A transbordar. Nas aldeias, nas vilas e nas pequenas cidades do interior os emigrantes dão nas vistas: carros que voam, dinheiro a luzir, a alegria dum abraço. Tudo ruidoso. A saudade das férias. A esperança reanimada ao calor das noivas e das mães. Alguns sonhos partidos, é certo: todo o sonho é de vidro e por isso parte-se com facilidade. As andorinhas regressam em Março; os emigrantes, em Agosto. Ambos anunciam um reverdecer. Entram em nós. De tal maneira que, às vezes, ficamos com um remorso a ficar na alma. As andorinhas regressam […] - [Oh meu S. Bartolomeu](https://antoniocabral.pt/oh-meu-s-bartolomeu/): Ora atenção a S. Bartolomeu (ou Bertolameu, como também se diz em S. Bartolomeu do Mar, a uma cancha de Esposende) cuja festa se aproxima e de quem vou hoje falar de raspão, ao bulir-me pitoresca parlenda que, espraiada entre o responso, a encomendação e a xácara, eu conhecia em criança como remédio contra coisas ruins que podem sobrevir (ou subvir) de noite, consoante me diziam. Há outras rezas, aparentemente mais apropositadas, como esta que Leite de Vasconcelos diz ser de Foz Côa: S. Bartolomeu me disse:Que dormisse e descansasse,Que nenhum medo tomasseDaquele malvado,Que tem a mão furadaE a orelha retonada.1 […] - [Os nossos governos](https://antoniocabral.pt/os-nossos-governos/): Numa coisa os nossos governos têm sido escrupulosamente cristãos: mantêm a agricultura pobre para cumprir a profecia de Cristo que diz: pobres sempre os tereis convosco. - [Uma criança a brincar](https://antoniocabral.pt/uma-crianca-a-brincar/): Falei há dias com uma criança, sem que entre nós houvesse a mínima troca de palavras. Gostas de brincar com a areia, porque as mãos enchem-se e esvaziam-se num instante, não é assim? Pois, responderam-me os olhos que andavam de dedo em dedo como andorinhas verdes. O monte, grande monte de areia, estava à ilharga de um prédio alto, também ele um monte de areia que, visto dali, se perdia nas nuvens, areia de água, areia também. Os limoeiros ficarão na memória por algum tempo, o suficiente para sentirmos esse frémito de vida no esquecimento. Os limoeiros viam-se ao dobrar a […] - [A vinha e o vinho](https://antoniocabral.pt/a-vinha-e-o-vinho/): Ó lavradores do Douro já não comeides vitela. Deu a doença nas vinhas chamada filoxera. - [Sobre a expressão "Entre quem é"](https://antoniocabral.pt/sobre-a-expressao-entre-quem-e/): Em Trás-os-Montes e Alto Douro cultivava-se a hospitalidade que consistia em as pessoas receberem sem reservas na sua morada (ethos em grego) o conterrâneo ou o passante que batessem à porta. Esta, durante o dia e até à hora de deitar, estava sempre encostada ao batente, sem recurso à língua da fechadura ou, quando muito, apenas com cravelho ou trinco manejáveis por fora. Explicar tanta confiança não é tão fácil como parece. Virtudes da terra-mãe que é de todos e todos partilham ou devem partilhar sem animosidades. O instinto do sagrado a revelar-se na comunhão necessária com os outros, o outro […] - [Sol crescente](https://antoniocabral.pt/sol-crescente/): Neste Julho de sol crescente em que até as pedras se convertem em frigideiras gosto de ir até ao quintal e sentar-me à entrada do alpendre, sob a ramada. – Olhe que as plantas, desde uma ervinha a uma videira, têm a sua parte d’alma; ora veja se consegue notar; às vezes, só de estarmos ao pé delas, começam a mexer-se como se lhes desse um ventinho – disse-me já o ti Quim. Por que será que a corriola, ou tangibrança, como aqui mais se diz, sobe aos abraços por aquela cepa? Pus-me a fitar a ramada. Concentrei-me. Primeiro fechei os […] - [Festa rija em Braga](https://antoniocabral.pt/festa-rija-em-braga/): Braga, a Augusta Bracaria dos romanos é, como não podia deixar de ser, dona de boas tradições e ilustres figuras eclesiásticas, como S. Martinho de Dume, S. Geraldo e Frei Bartolomeu dos Mártires – permitam-me o destaque. Dar um passeio camiliano pelo Bom Jesus ou, acompanhado de uma luz verde, cruzar o arco da Porta […] - [Um dia saberemos](https://antoniocabral.pt/um-dia-saberemos/): Tinha aparado os olhos até ao brilho.Falava muitas vezes com o vento.Não é fácil contar como aquilo sucedeu. Quando o procurámos, havia partido,aliás com destino muito incerto.Agora dizem-se coisas desencontradas, como é natural em tempo de guerra.Partiu mesmo ou levaram-no?A mulher enche o quarto de pensamentos e põe os olhos quentes à janela;os amigos diários […] - [Os homens cantam a Nordeste](https://antoniocabral.pt/os-homens-cantam-a-nordeste/): Minha terra dos gumes silenciosos e tantas oh harpas azuis de ser. De ser um dia.Um dia caído. Ainda em rugas húmidas. Tecido que vem da noite dos tempos, com grandes sombras ainda dos pináculos. Feudais. Mas onde o vento, o do arco célere, suspendeu o seu canto de gladíolos.Assim eu canto. Contra o vento, […] - [A magnólia](https://antoniocabral.pt/a-magnolia/): A magnólia regressou, ela irrompe e fenece num intervalo de tempo imperceptível. Em pleno Fevereiro as estações aceleram, ciclos - [A fogueira de Natal](https://antoniocabral.pt/a-fogueira-de-natal/): Tenho entre mãos um livro de que me fizeram conselheiro editorial, função, vá lá, que ocupei em dois ou três casos apenas nesta conturbada feira de vaidades e arranjinhos que é a vida literária portuguesa. Como vi logo tratar-se de uma publicação ajoujada de figuras típicas e costumes, aceitei o encargo que, de olho malandro, […] - [Primeira elegia de Lisboa](https://antoniocabral.pt/primeira-elegia-de-lisboa/): Estou à janela e ponhoa imaginação no teu ombro,meu belo país dos infinitos silêncios. Que não ardem.Aqui, faróis e noite bolorenta.Um resto de Lisboa sobre o asfaltoos que vivem de noite e os que vivem da noite,Por que recordo a minha terra longe,através da vidraça e do Rossio em nuvem?Os olhos se dissipam, resta a […] - [Cantiguinhas do volfrâmio](https://antoniocabral.pt/cantiguinhas-do-volframio/): “Abençoado Hitler que nos tirou da miséria!” “Olha lá, ó coiso: manda o rebanho e os leiros àquela banda”. “Catrino, pá, nunca vi ninguém fumar uma nota de cem paus! Se ma desses…” Isto e muito mais. Era assim: disparates como balões inchados a cruzarem o céu maluco da mioleira onde a bomba do dinheiro […] - [Tica, tica, tica](https://antoniocabral.pt/tica-tica-tica/): A necessidade de sair, por um tempinho que seja, de entre as quatro paredes das tarefas diárias e do quintalinho verde-ouro do desejo e dar a este olhos vulneráveis e pernas de carne e osso — eis o que sinto, de vez em quando, como aliás toda a gente. Gente de que hoje vou destacar […] - [Acorda amor](https://antoniocabral.pt/acorda-amor/): Acorda, amor. Não ouves o silêncioranger à volta da nossa casa?Algo se passa. As aves na palmeirado pátio acabam de estremecer.Ouço-as pelas frestas da velha paredee o medo volta de novo ao meu coração.Bem sei que não devia ter medo, que o sonoé esse doce país cantado pelo poeta,onde os rios não correm somentepara demarcar […] - [A uma oliveira](https://antoniocabral.pt/a-uma-oliveira/): Velha oliveira, ó irmã do tempo e do silêncio,algo de ti se me tornou hoje perceptível;algo que eu não conhecia e me fez pararna ténue sombra que teces no caminho;algo que é uma doce corola de contacto.Já os passos da luz se afastam na colinae um rumor de pérolas quebradasdesce, lentamente desce por toda a […] - [Descendo a quinta do Roncão](https://antoniocabral.pt/descendo-a-quinta-do-roncao/): Ao longo do caminho, há pampilros e um sol quente derrama-se na vinha. É domingo e é Abril. - [Um barbeiro diplomado](https://antoniocabral.pt/um-barbeiro-diplomado/): Quando tinha a idade das vinhas a assumirem-me diariamente os olhos, comecei eu a sentir uma admiração respeitosa, que o respeitinho é muito bonito, pelo senhor José. Para ser doutor só lhe faltava o curso, que o diploma já toda a gente lho conhecia, e como tal era tido e havido na aldeia. O senhor José Tairéis, segundo alcunha de família, se calha por mor de alguns tamancos, penso eu, numa tremida hipótese etimológica. Homem dado ao sério, quando tinha de falar no exercício da sua arte, media as palavras, abrindo mesmo pausas melódicas como se entoasse versículo dalgum salmo e isso era razão suficiente para se lhe notar um certo ar profético. - [Faremos do envelhecer uma arte?](https://antoniocabral.pt/faremos-do-envelhecer-uma-arte/): O tempo devolve, quase intacto, o olhar suficiente. E as águas vão ficando para trás, mansas, algumas à nossa frente - [Na repartição](https://antoniocabral.pt/na-reparticao/): Que tempo se passa na repartição, esperando a vez que virá ou não! - [Sete notas para uma sinfonia](https://antoniocabral.pt/sete-notas-para-uma-sinfonia/): 1. Só saberás a música do vinho, quando ouvires o sol, dedo a dedo na vinha, esta guitarra. 2. No Douro só o nome é de ouro. As verdades são mais ou menos assim. 3. Curvam-se os homens sob os cestos de uvas: uma atitude de reverência. 4. Mudam-se os tempos, não muda a vindima: a mesma lua sobre o pensamento. 5. Os homens põem capelas no cimo dos montes para que os ouçam à distância. Eis uma forma elegante de dialogar com os mortos. - [Padrenosso pequenino](https://antoniocabral.pt/padrenosso-pequenino/): Aqui está um dístico bem popular quanto ao paralelismo estrutural e anafórico e quanto ao imaginário mágico-religioso. Sabe-se que a quadra e o e dístico são os sistemas estróficos mais do agrado da criação poética do nosso povo que, por outro lado, reservava na sua imaginação um lugar especial para os galos (que tanto simbolizam o garbo e a fecundidade como, sendo pretos, uma certa aliança com forças misteriosas) e para os anjos (estes a representarem a protecção divina, seres benfazejos, e também solares – tal-qualmente os galos, aliás, – de asa brilhante e acolhedora). - [Mulher do campo](https://antoniocabral.pt/mulher-do-campo/): Ia para o campo sempre com alguma coisa na mão, uma cesta, uma cordinha para atar qualquer coisa de trazer à cabeça, quando não uma alvorada, uma daquelas que eu já tinha visto à entrada de sua casa e a todo o momento o vidro ameaçava partir. As manhãs de Julho são mais quentes e […] - [Feiras e artesãos](https://antoniocabral.pt/feiras-e-artesaos/): Tenho entre as mãos um livro de A. M. Galopim de Carvalho, Director do Museu Nacional de História Natural e cientista que se tem distinguido na luta pela preservação das pegadas de dinossauros em Carenque (Sintra). Outro tipo de paleontologia o atraiu, levando-o a escrever um livro de contos-crónicas sobre figuras e factos de Évora, no segundo quartel deste século. A memória a descobrir e a afeiçoar luminosidades que lhe estrelaram a infância. Ou, diz ele, "como o abrir de um velho baú, num sótão onde se não ia há muitos, muitos anos". - [Jogar é um direito da criança (2)](https://antoniocabral.pt/jogar-e-um-direito-da-crianca-2/): Nos princípios de Setembro de 1983, o alcaide de Corcubión (A Corunha) telefonou-me para eu dar um curso de cinco dias na Universidade Popular de Verão daquela pitoresca localidade galega (19 a 23 de Setembro de 1983). Que os jogos populares tinham dali praticamente desaparecido e que era preciso incentivar as crianças a retomá-los, pois […] - [Os cravos e o pão](https://antoniocabral.pt/os-cravos-e-o-pao/): Deus fez-nos livres; Salazar quis rivalizar com Deus e negou-nos o direito à liberdade, acorrentando-nos a um corporativismo medieval e indiscutível. Tão ferozmente indiscutível que os seus esbirros iam esmagando, uma a uma, as sementes da filosofia política libertadora, como se fossem vermes corrosivos. A criação filosófica atrofiou-se, alguma da mais sã e válida literatura […] - [Bastou um sopro](https://antoniocabral.pt/bastou-um-sopro/): Os dias contam-lhe o tempo ressequido: o espaço dos passos em Ceuta, a cinza do canto gótico, pomares de coisas muito gastas. Em pequenos círculos, os olhos divisam o rosto com dificuldade: uma estátua de sal, um ceptro de água nos confins da noite. Bastou um sopro e as tapeçarias começaram a evolar-se nas muralhas do sono. Bastou um sopro e as palavras já não andam de canto em canto, como embalagens clandestinas. Meu velho cárcere com gabinetes especiais para os que vendiam a consciência por trinta dinheiros. Os dias adelgaçavam-se nas pequenas fendas, pedra do pensamento voando em estilhas, na erva em lâmina das vinhas, das ruas por encher, dos ossos nos holocaustos inúteis. - [Cantares de cegos](https://antoniocabral.pt/cantares-de-cegos/): Viam-se com frequência nas feiras da nossa terra cegos a cantarem com o fito na esmola das pessoas que entretanto os rodeavam. Pessoas muitas vezes interessadas, até à emoção, nas geralmente suaves e dolentes histórias que iam ouvindo. Esses tão simpáticos herdeiros dos jograis medievos vêem-se cada vez menos, que as feiras, aliás, perdem gradualmente […] - [O motim](https://antoniocabral.pt/o-motim/): Dos amotinados de 1757 nomeio a Estrelada. Se gostava da pingoleta coisa que não sei: vinho tem razões que a razão desconhece e as razões são aos milhões. Certo, certo é que o Marquês disse por cima do ombro: nas tabernas do Porto vinho só o da Companhia — ponto final. Vírgula, disse o povo, fazendo contas de cabeça. E nessa quarta-feira as ruas acenderam-se. E o sol... moita carrasco. Abaixo a Companhia! E foi o pandemónio. Veio a tropa, veio a lei, homens de má catadura. Forca, açoites, calabouço, confiscação e galés. Foi quase meio milhar de tripeiros que julgavam que o povo é quem mais ordena. O sol já tinha remorsos: quem é aquela criança que assiste à morte do pai? Condenada, meu senhor. Da forca pendem treze homens, quatro mulheres também. A Estrelada estava grávida — salvaram-se as aparências. - [Feira dos namorados em Vila do Conde](https://antoniocabral.pt/feira-dos-namorados-em-vila-do-conde/): Fui lá uma, duas… olhe, aí umas três vezes. Que é como quem diz três ou quatro anos. Era a feira mais catita de Vila do Conde. Sempre, batia sempre no dia de S. Sebastião: no vinte de Janeiro, como o senhor deve saber. Ora… claro que sabe. E quanto ao que me diz, de […] - [Se Jesus voltasse ao mundo](https://antoniocabral.pt/se-jesus-voltasse-ao-mundo/): Se Jesus voltasse ao mundo, tivesse de renascer, que lugar escolheria? Gostaria de saber. Numa vivenda bonita, daquelas da beira-mar? Num hotel de cinco estrelas, com janelas a brilhar? Coro Pensem lá, mas pensem bem, que nós pensamos também. Vamos pensar, mas a sério; decifrar este mistério. É mistério? Talvez não. Basta um pouco de atenção. - [Poema com história](https://antoniocabral.pt/poema-com-historia/): Éramos seis na gare da estação. Lá no fundo, encostado à parede, só, magnífico, a perna esquerda em triângulo, um rapaz tocava concertina. Um homem de calças engomadas lia o jornal e falava. Falava de guerra. “Que se matem. Uns e outros são contra nós” — comentou um velhote com ar de regedor. “Hindus e chins?!” Tudo uma corja” — sentenciou o das calças engomadas. “Isso, isso. Corja. Lá se avenham”. Uma pomba voava sobre o rio. O chefe da estação e o carregador tinham-se afastado, prudentemente. “E ao senhor que lhe parece?!” – atirou-me o letrado das calças engomadas. “Que uns e outros são nossos irmãos.” - [A escrita é um cão a ganir à porta que se abre](https://antoniocabral.pt/a-escrita-e-um-cao-a-ganir-a-porta-que-se-abre/): A escrita é um cão a ganir à porta que se abre para lhe dar mimos, o agasalha à lareira com um osso farto e tanto o escorraça, mesmo se é noite e uma carnificina de neve lhe imobiliza as mandíbulas. O cão escava fundo e tapa, ou deixa buracos escondidos como luras, outros como túneis de metro ligando cidades e a porte abre ou fecha mas o cão nunca desiste das palavras que não adestram. Se o dono o castiga, sofre mais ainda a dor animal esgravatando o alvoroço do poema que tarda, por mais que as orelhas no ar farejem a música e o focinho irrequieto mostre as narinas dilatadas de desejo por um verso, uma constelação de linhas onde todo o universo se banhe num caudal de palavras honestas. O cão a caminho das palavras duras de roer. - [Figos pretos](https://antoniocabral.pt/figos-pretos/): Subimos aos calços mais altos em busca dos figos pretos de que a mãe tanto falava. A cor exerce em nós alguma atracção que nos leva a desafiar estes íngremes taludes onde ruíram paredes e com elas as lajes salientes que serviam de degraus. Escorregamos na luz, de pedra, e as figueiras olham-nos como gatos bravos, sem dúvida. A tarde ganha formas digitais. Sentimo-la e, por isso, quando acabamos de encher a cesta, regressamos com ar de triunfo - [As quatro estações](https://antoniocabral.pt/as-quatro-estacoes/): Primavera — O teu corpo quando vens ter comigoVerão — A tarde escorrendo nos teus ombrosOutono — O vento desfolhando o teu cabeloInverno — A porta por onde entravas - [O professor como instrutor, educador e animador](https://antoniocabral.pt/o-professor-como-instrutor-educador-e-animador/): Instruir (lat. instruere — ins-truere — construir dentro) é a função do professor, mas essa função, quer como processo do ensino-aprendizagem, quer como seu resultado, excede os limites da transmissão e da aquisição de conhecimentos. “Construir dentro” é organizar, estruturar: integrar os conhecimentos na pessoa do aluno. E porque assim é, tem-se preferido falar de […] - [Habituei-me à ironia](https://antoniocabral.pt/habituei-me-a-ironia/): A Carlos Loures Habituei-me à ironia naqueles anos limosos que precederam o 25 de Abril e, não sei se por hábito, se por que é, dou comigo a escrever umas coisas desagradáveis. O hábito é uma segunda natureza — afiançam velhos moralistas. Viver numa pequena cidade não era então nada fácil. Triunfavam os oportunistas que […] - [Canção de embalar](https://antoniocabral.pt/cancao-de-embalar/): O gato do vento mia nas frinchas da janela. “Dorme, menino, dorme.” Teu paianda triste como as sombrasdo fundo da cozinhapois, há dois dias, o vento destroçaas inocentes videiras sem defesa.Vê-se da janela o bailado infernal:parecem virgens malucasou esqueletos a que roubassem a carne e a alegria.Mas tu não olhes. “Dorme, menino, dorme.” Teu pai, […] - [Numa praia do sul](https://antoniocabral.pt/numa-praia-do-sul/): A Afonso Cautela Aqui numa praia do sul o vento é mornoe os dias são de cera. Retiroas escamas do quotidiano pensar.Ácidas, salitrosas. E assim mergulhonuma lentidão de algas e sal. Assim te imagino, aldeia longínqua,cada vez mais sepultada entre vinhedos.Algures no norte. Semeada no sol.O meu tronco de zimbro precisavadeste amolecimento erigido em saliva. […] - [A romaria da Senhora da Saúde](https://antoniocabral.pt/a-romaria-da-senhora-da-saude/): Tarde de Agosto de 1979. Como no dia seguinte toda a gente se deslocava para a romaria da Senhora da Saúde, Ricardo, que sentiu vontade de ir para o rio, perguntou a Miguel se tinha alguma coisa a fazer, caso contrário dava-lhe jeito se o acompanhasse. Vamos hoje e vamos amanhã, padrinho, disse Miguel. Eu […] - [Sobre o Douro na manhã verde](https://antoniocabral.pt/sobre-o-douro-na-manha-verde/): A paisagem dilatava-se para as bandas de Cinfães, com uma revoada de casas a pousar entre o arvoredo, abrigando-se das asperezas da serra de Montemuro. Uma ponte branca sobre o Douro punha na manhã verde uma palavra quente, aberta ao Sol que estava já mais próximo de tudo e ia entrando com uma solenidade cautelosa […] - [Momento](https://antoniocabral.pt/momento/): Nesta manhã de Abril a terra falae cada coisa diz uma palavra:o sol, as árvorese aquele melro,carvão aceso numa urze em flor.Trazemos os pés húmidos da relva,mas, sob o pólen fulvo dos pinheiros,que a aragem leva,uma forte volúpianos dilata as narinas e transbordanos olhos ledos como poços cheios.Tudo é florido, estevas e carquejas…Não há ave […] - [Compasso](https://antoniocabral.pt/compasso/): Manuel Vieira Dinis escreveu um livro carinhoso sobre as tradições de Paços de Ferreira. No capítulo dedicado às tradições pascais começa assim: “A quadra da Páscoa, com o seu domingo iluminado é, para as aldeias deste Douro quase minhotinho, a mais festiva e bela do ano”. E pouco depois cita o Livro de usos e […] - [Festa das fogaceiras](https://antoniocabral.pt/festa-das-fogaceiras/): Em 1749 e 1753 não se cumpriu a promessa dos feirenses ao Mártir S. Sebastião. Tanto bastou, reza a tradição, para que a peste voltasse a terras de Santa Maria da Feira. O carácter lúdico da festa e procissão das Fogaceiras, em honra de S. Sebastião, prende-se à evocação mítica em que a luta entre […] - [Xácara](https://antoniocabral.pt/xacara/): Era uma moira encantada que se chamava Maria. A sua gruta fechava-se, apenas o sol nascia. - [Camilo e o livro de S. Cipriano](https://antoniocabral.pt/camilo-e-o-livro-de-s-cipriano/): Em Vinte horas de liteira diz-nos Camilo que perguntou a um seu companheiro de viagem, António Joaquim, se não tinha uma história de feitiços para lhe contar, enquanto a liteira ia de longada desde Ovelhinha (Marão) até ao Porto. E o interpelado respondeu-lhe que no género mágico sabia uma ocorrida com o seu tio João […] - [E aqui moram os desesperados](https://antoniocabral.pt/e-aqui-moram-os-desesperados/): Prémio Literário António Cabral 2021 E aqui moram os desesperadosque aprenderam a respirarfora de água. À primeira vista, sãocomo qualquer pessoa:nos cafés, consultandotelemóvel, trocos, linhas da fortuna,dando a vida de baratoem troca de noites sem susto,menos passos à volta do poço,um esquecimento mais dócil.Por dentro, retalhamjugulares, retinas, o nome próprionum derrame de sonos. O que […] - [O jogo autárquico](https://antoniocabral.pt/o-jogo-autarquico/): Certos órgãos do poder, não só em Portugal, cultivam a superficialidade porque ela, sendo o espaço imediato, se converte facilmente num meio de promoção. O que lhes importa é a acção vistosa e concordante com as tendências do gosto dos espectadores, o qual é na generalidade o gosto para esquecer o quotidiano, o gosto-passatempo. Os […] - [Ainda o caminho de Santiago](https://antoniocabral.pt/ainda-o-caminho-de-santiago/): Pelo que disse no número anterior, parece justificar-se a existência de placas nalgumas estradas portuguesas a atestarem que por ali passaram peregrinos rumo a Compostela. Mas atenção, leitores, isto de alcançar o título oficial de peregrino não é pêra doce. É preciso jornadear pelo menos cem quilómetros a pé ou duzentos de bicicleta. Coisa que […] - [Valham-nos os santos populares](https://antoniocabral.pt/valham-nos-os-santos-populares/): A onda de direita que assola a Europa tem na crista uma luzinha que atrai os eleitores e essa luzinha é a promessa de instalar a ordem, pondo cobro à violência e ao crime. De facto a esquerda não soube equilibrar e fazer interagir as ideias de justiça social e da liberdade responsável. Como evitar, […] - [Meditação com um menino](https://antoniocabral.pt/meditacao-com-um-menino/): “Aonde vás, niño?”Luís Alberto de Paraná 1 Aonde vais, menino,com esse olhar que se alonga,alongacomo se fosse dar a volta ao mundo?Quantos anos tens? Que idadefutura?Quem te deu esses olhose pôs uma bárbara estrelaa devorar o silêncio? 2 Podias ter ficado na ruacom os outros meninos.Há sempre um jogo,um nada-mundo,para os meninos como tu.Mas preferiste […] - [Quadras e quadros](https://antoniocabral.pt/quadras-e-quadros/): Gosto de me servir dos dicionários. Quantas ideias me oferecem, sem pedirem em troca mais do que o preço de os comprar e/ou consultar! Abro o Petit Larousse e leio (traduzo): “revolução: mudança brusca e violenta na estrutura económica, social ou política de um Estado”. É evidente que estou a pensar no 25 de Abril […] - [Junqueiro na berlinda](https://antoniocabral.pt/junqueiro-na-berlinda/): “Inquiriram, uma ocasião, de Junqueiro que paisagem portuguesa preferia. Respondeu: – Prefiro o Buçaco e as praias do Sul. A floresta e o mar são as aproximações do infinito. A floresta é uma oração; o mar uma grande messe de ondas. – E Barca de Alva, Sr. Junqueiro? – Barca de Alva é demasiado trágico […] - [Baile de caretos](https://antoniocabral.pt/baile-de-caretos/): A Cristina teve de optar entre dois pretendentes e optou. O Zeca não tinha nada com isso, pois não, mas jurou vingar-se, escolhendo um momento azado do Entrudo, o baile de caretos que o Vespertílio organizava anualmente no salão de festas. O baile começava à meia noite e prolongava-se até às tantas da matina, sendo […] - [Não é fácil, Senhor, a vida que nos deste](https://antoniocabral.pt/nao-e-facil-senhor-a-vida-que-nos-deste/): Não é fácil, Senhor, a vida que nos deste. Se há momentos serenos como lagos inundados de sol, também há a seiva escura, infindável e escura, de muitas horas que cansam e fazem doer a alma. Há longas esperanças que, depois de levarem o melhor dos nossos sonhos, desabam de repente. Há o fracasso, o […] - [12. O Zé do Telhado](https://antoniocabral.pt/12-o-ze-do-telhado/): Veio a descobrir-se na tasca, passado um ano, que os três galegos retidos no aljube estavam inocentes. “In vino veritas”, isto é, o vinho a pôr os pontos nos is. Dois homens a insultarem-se e um deles a revelar o crime praticado pelo outro. Um dos egressos ficou a trabalhar no quintalório da prisão, dado […] - [11. Nós todos três](https://antoniocabral.pt/11-nos-todos-tres/): Resolveram então aprender melhor a nossa língua e por isso deitaram sortes para escolherem três deles, que numa tarde de domingo foram à taberna, demorando-se lá um bocado a jogar a bisca lambida, mas sobretudo atentos à mesa do lado onde três magnates da aldeia se distraíam com outro jogo. Ouviam mais do que jogavam […] - [10. As chouriças doces](https://antoniocabral.pt/10-as-chouricas-doces/): Ao fim duns tempos, juntaram-se os três grupos porque já tinham saudades uns dos outros. Foram dar a uma aldeia onde se distribuíram por quatro casas de lavoura. A um rancho numa delas deram-lhe chouriças doces com água-pé. Comeram, comeram e tanto gostaram que pediram à patroa-nai que lhes ensinasse a fazer petisco tão saboroso. […] - [9. A rata sábia](https://antoniocabral.pt/9-a-rata-sabia/): O Grupo de Baixo ficou-se por uma quinta à beira-rio onde, de oito em oito dias, passava o barco rabelo da carreira que levava e trazia o correio. Quando, uma noite depois da ceia, estavam num terreiro a dançar a muiñeira, apareceu o feitor a entregar uma carta a um que se chamava Cortes, Xosé […] - [8. Cachaplim plim](https://antoniocabral.pt/8-cachaplim-plim/): Desciam por um caminho de cabras e assomaram a um fragão donde se contemplava, a meio da encosta fronteira, um povoado que lhes chamou a atenção. Fosse da graça que acharam a tanta janela e cal reluzente, sinal de conforto, fosse da grandeza que respirava o solar duma quinta, mais abaixo, decidiram romper o acordo […] - [7. A azeitona](https://antoniocabral.pt/7-a-azeitona/): O Grupo do Meio foi dar a uma aldeia em cujos terrenos ladeirentos abundavam olivais. Facilmente encontrou patrão que, mirados e remirados os farsolas, logo propôs trabalho no varejo das oliveiras e apanha da azeitona. Que sim-senhor, anuíram imediatamente. O mês de Dezembro corria friorento, com algumas rajadas de vento que faziam cair a azeitona, […] - [6. Redra de borla](https://antoniocabral.pt/6-redra-de-borla/): Foi quando o reguila teve a ideia de se dividirem em três grupos a que deram os nomes de Grupo de Baixo, Grupo do Meio e Grupo de Cima. O Grupo de Cima rumou a um povoado encavalitado na montanha onde decorriam os trabalhos da escava, serviço que consiste em abrir uma meia cana ao […] - [5. A raposa](https://antoniocabral.pt/5-a-raposa/): A paparoca deu-lhes para se endiabrarem e, quando já iam nas andadeiras, atoparam à beira do caminho uma raposa morta e entourida. Miraram-na bem, miraram, e deu-lhes para descarregar sobre ela as fúrias e desnortes provocados pelo sumo azedo que lhes ardia no estômago, tanto mais que a raposa, inchada como estava e peludeca, lembrava-lhes […] - [4. Amaruchar amarucham](https://antoniocabral.pt/4-amaruchar-amarucham/): Um dia, iam de uma aldeia para outra e sentiram fome. Viram um portuguesito que estava a varejar umas nogueiras e lá lhes pareceu que eram pessegueiros. Regulavam mal da cabeça, tal a larica e a sede que deles se tinham apoderado. O mais afouto e reguila, o tal que contava os outros e não […] - [3. Que frio fai lá fora](https://antoniocabral.pt/3-que-frio-fai-la-fora/): Aquela noite ficou na história do Douro como das mais frias de que há memória. Os homens regelaram até ficarem inteiriçados. Um deles, a certa altura, meteu o dedo num buraco da rede e cantarolou: – Que frio fai lá fora! Os restantes, idem, aspas, e começaram a encostar-se uns aos outros, à procura de […] - [2. Caíram todos ao rio](https://antoniocabral.pt/2-cairam-todos-ao-rio/): Era uma vez vinte e cinco galegos como vinte e cinco burros que traziam vinte e cinco palos como vinte cinco traves. Atraídos pela fama de boa chelpa para os que trabalhavam nas vinhas do Douro, largaram por montes e vales, chegando em pleno Inverno, tempo de podas. Ao pé do rio, depois de tão […] - [1. Historinhas de Galegos no Douro](https://antoniocabral.pt/1-historinhas-de-galegos-no-douro/): Nestas historinhas de galegos a quem o Douro muito deve mantenho, quanto à estrutura diegética, o que me foi contado sobretudo pelos meus pais, quando eu era ainda criança, e que numas curtas férias de Entrudo, passadas com a minha mulher em Castedo do Douro (8-13, Fevereiro, 2002), relembro com a minha irmã que me […] - [O Caminho de Santiago](https://antoniocabral.pt/o-caminho-de-santiago/): Entende-se por Caminho de Santiago a via que os peregrinos percorriam e percorrem até Santiago de Compostela em cuja catedral se crê estar o túmulo do apóstolo S. Tiago. De Portugal, segundo estatística dos anos oitenta deste século, os devotos não afluem em tão grande número como é o caso de franceses, alemães e belgas. […] - [Poesia e amoras](https://antoniocabral.pt/poesia-e-amoras/): Quero que este poema saiba às amoras que pendem em cachos nos muros do caminho. No meio do vale estou eu só. Lentamente a manhã possui-me e vibro. Não há torrão e arbusto que não vibre; sinto-me irmão de arbustos e torrões. Aquele medronheiro, verde e ossudo, entrou-me todo pelos músculos. Pastor que segues lento […] - [Os búzios do 25 de Abril](https://antoniocabral.pt/os-buzios-do-25-de-abril/): No dia vinte de Abril de um, nove, sete, quatro, eram quatrocentos búzios os que enchiam um salão - [Apesar de tudo](https://antoniocabral.pt/apesar-de-tudo/): Apesar de tudo, existe a beleza e, um dia, sabemos que ela passou no vale onde aceitámos viver. Basta um sonho e do suor eleva-se o perfume das laranjeiras. Basta um sorriso e todos nos sentimos verdadeiramente irmãos. Um dia fechamos o escorpião do medo no círculo triunfante do nosso amor: É tão simples – […] - [Eiqui, Douro](https://antoniocabral.pt/eiqui-douro/): Eiqui, Douro. L Paraíso de l bino i de l sudor.Dun riu ne l berano oussudo i afiladocumo la giente,quando l’alma s’arrama pulas frinchas de la piel;riu tamien barrento, la quelor de la tierra,pa que l’alma seia anteira;riu de las grandes mundiadas, de l abraço finalde tuoros de homes, de arbles i de suonhos;dun riu […] - [Arte poética](https://antoniocabral.pt/arte-poetica/): Palavra que não se invente não é quente. Palavra que não tem dente não é gente. Flor que (fruti)fique no ramo todo o ano e o vergue para o chão ao alcance da mão. - [Lendas mouras do monte de S. Leonardo](https://antoniocabral.pt/lendas-mouras-do-monte-de-s-leonardo/): A ponta de rochedos que é o morro de S. Leonardo, em Galafura, debruçado sobre o grande vale duriense, presta-se a que ali florissem lendas de mouras encantadas, cerzidas umas nas outras e afins das que pululam por toda a região. O que as distingue é constituírem um conjunto harmonioso e pitoresco, ligado ao efeito […] - [Cruzeiro no Douro](https://antoniocabral.pt/cruzeiro-no-douro/): O que mais perplexo me deixou numa viagem rio acima foi este velho e célebre pensamento: o caminho que sobe e o caminho que desce são um e o mesmo. Olhei em várias direcções e acabei por revelar a minha perplexidade a um companheiro de ocasião que como eu estava junto da amurada. Para mim […] - [Gândara](https://antoniocabral.pt/gandara/): Prémio Literário António Cabral 2019 A terra fremefarta de chuva Uivam douradas dunasna orgia do ventoao sul Imaculados corposdormemsobre descampados Arde aindao dia Casa de adobona cinzadas palavras - [Por aqui não](https://antoniocabral.pt/por-aqui-nao/): Por aqui não há fábricas, há uns lagares de azeite e é um pau; mas também não há greves: já o negócio não vai assim tão mau. Nas eleições toca-se em tom de lá de baixo: essa é a cau- sa de os que mandam manda- dos terem umas promessas de au- mento das obras […] - [Provérbios da vinha e do vinho](https://antoniocabral.pt/proverbios-da-vinha-e-do-vinho/): O uso corrente da língua torna o provérbio como sinónimo de ditado popular, adágio, anexim e rifão. Alguns linguistas têm feito a distinção dos termos, valendo a pena observar que o anexim apresenta geralmente forma rimada e carácter moralizante (ex.: quem o alheio veste/ na praça o despe) e o adágio, voltado também para a prática, é marcado por uma intenção espirituosa (ex.: vozes de burro não chegam ao céu; nariz de homem, cu de mulher e focinho de cão não conhecem Verão). Ficam o provérbio, o rifão e o ditado, como equivalentes; constituem nas suas linhas gerais uma observação fina e cintilante do viver, apoiada na experiência, sem terem necessariamente cunho apelativo. - [Pinhão, 8,20](https://antoniocabral.pt/pinhao-820/): Em Junho, a fruta começa a apetecer.Um homem passeia no cais e debulhauma nêspera com ar de quem faz horas.8,20 – diz o relógio. Espera-se.O comboio, um monstro de cem bocas,pardo e caduco, fumega lentamentecomo um charuto abandonado.Manhã de vidro. Vê-se a montanha,tem de se ver; e sabe bempôr os olhos lá no alto e […] - [A Casa do Douro](https://antoniocabral.pt/a-casa-do-douro/): Empregados, vitrais, papéis,protestos, ralhos, tonéise, lá do alto, um presidente. Um tronco para longas ramagensque se estendem,opulentas ou não, sobre o rio. Um tronco carcomidopor velhos quindins,Em todo o caso, um tronco. Tirai a conclusão – diria Brecht.A conclusão, às vezes, é um queijosem faca – penso eu. - [À minha filha Eva brincando com um papel](https://antoniocabral.pt/a-minha-filha-eva-brincando-com-um-papel/): 1Tu és o ser mais belo do mundo.O ser em toda a sua beleza enchendo o meu espaço.Que bom, filha, falar-te com esta simplicidade!Vejo em ti o mundo que começa, sem estrelasainda altas, sem rios que dividem, um impulsode luz, uma luz que eu não sei donde vem,apesar de tudo, e instante a instanteinutiliza a […] - [À saída do correio](https://antoniocabral.pt/a-saida-do-correio/): – Donde vem a carta,senhora Maria?– Vem da capitalé da Companhia. (A Maria Pêdratem um ar de pedraonde nem deixaramcrescer uma erva). – E que diz a carta,senhora Maria?– Que no Douro o solnasce ao meio-dia. (A Maria Pêdrafala como quementra numa igrejae não vê ninguém). – É sobre o seu filho,senhora Maria?– Tivesse eu […] - [Descalça vai para a fonte](https://antoniocabral.pt/descalca-vai-para-a-fonte/): IDescalça vai para a fonteLeonor pela verdura:vai formosa e não segura. II Se tivesse umas chinelasiria melhor…; mas não:co dinheiro das chinelascompra um pouco mais de pão.Virá o dia em que os pésnão sintam a terra dura?Leonor sonha de mais:vai formosa e não segura. Formosa! Não vale a penater nos olhos uma auroraquando na vida […] - [O Marão](https://antoniocabral.pt/o-marao/): Os olhos ficam nesse corpo enormeQue emerge das funduras,Lá no fundo do mundo,E põe os ombros firmes nas alturas. Cimo tão belo como irresistível!Sente-se, ao demandá-lo,O embaloDa esperança ao devorar um impossível. - [A caqueirada](https://antoniocabral.pt/a-caqueirada/): No Carnaval até os cacos entram no banzé: cacos de louça partida e cacos de louça a partir. Como se fosse o tempo de atribuir uma função útil a sarandalhas e escassilhos que já deram o que tinham a dar. Como se o atirá-los para dentro de uma casa fosse um aviso; como se provocá-los ainda uma vez fizesse transpirar do gesto uma lição; ou como se isso não passasse de um excessozinho eufórico em tempo de tácitas permissões. - [O molho de giestas](https://antoniocabral.pt/o-molho-de-giestas/): Quando vem ao longe com um molho de giestas,talvez ela pareça outro molhoem posição vertical. Desajeitada.Um dia,um turista, depois de a fotografarcom um ar de arqueólogo, e de lhe atiraruns olhos vomitados sobre os pés,cuspiu muito simplesmente para o lado. Vinha descalça. Talvez por comodidade,talvez por necessidade.Cá na terra acham isso naturale ninguém faz reparos […] - [A missa do galo](https://antoniocabral.pt/a-missa-do-galo/): A Missa do Galo começa à meia noite, mas o Catrino chega uns minutos depois e encosta-se à pia de água benta no fundo da igreja. Calado como um rato, não reza nem canta, vendo-se-lhe somente bulir os olhos, como se fossem as luzinhas dum gravador. Ou pontos de interrogação. - [A máquina](https://antoniocabral.pt/a-maquina/): Ainda era uma aldeia sossegada. Começaram a lavrar o quintal da casa onde viviam, ao longo do muro que demarca da via pública a courela cimeira. Ela à frente do jumento e ele atrás com a rabiça do arado. O jumento estacou subitamente e viram alguém chegar à cancela. Ele foi ver. O desconhecido disse-lhe […] - [A terra onde verdadeiramente nasces](https://antoniocabral.pt/a-terra-onde-verdadeiramente-nasces/): A terra onde verdadeiramente nasces não é onde te pariu a tua mãe, mas onde foste gerado e/ou passaste a infância, mesmo parte dela, que te marcou para sempre. Veredas e recantos cheios de vegetação, o céu ali, em cada coisa, sobretudo nas que se movem e dão volta ao infinito. Tive a sorte, dizes, […] - [Foi de facto numa roga](https://antoniocabral.pt/foi-de-facto-numa-roga/): De seu nome Francisco Alexandre Lobo, o caseiro viera para a quinta numa roga de montanheiros dos lados de Jales. Na sua terra, a Cerdeira, tinha assistido à debandada dos rapazes da sua idade, desejosos de vida mais limpa, a governarem agora a vida na França e outros países onde o dia, dizem eles, só tem vinte e quatro horas. Assistiu a isso, enquanto se atolava nos leiros e olhava as estrelas, antes de romper o dia, umas cabras que se lhe punham a chocalhar a luz na testa como o rapaz da campainha à frente dum enterro. Vivia numa casa térrea, só com a mãe e o pai, dois tropeços resignados, e em Agosto ouvia o irmão, que regressava da estranja num bom automóvel e já tinha dinheiro para mandar fazer uma casa e comprar umas courelas para milho e batata com fartura, além de uma pipoca de morangueiro. - [O comboio do Douro](https://antoniocabral.pt/comboio-do-douro/): Do comboio a paisagem oposta vê-se maise levanta problemas, por isso é bomque no túnel da Valeira os olhosfechem para contas. Tão loquaz seriao alcantil a falar de naufrágios e gentena miséria, peixes que vêm à tonapor dá-cá-aquela-palha! Lucidamente in-conveniente, senhor próximo ex-PrimeiroMinistro. A paisagem, seja ela qual for, apenasse deve contemplar até certo ponto,ao […] - [O lavrador percorrendo a vinha](https://antoniocabral.pt/o-lavrador-percorrendo-a-vinha/): Ei-lo no meio da vinha, atento,como se ouvisse o próprio coração.Uma vide que toca é um músculo vibrando;um cacho que descobre é um pensamento novo. A terra ondula nos seus passose fez dele um arbusto sonhador.Quando os seus olhos pousam num rebentoduas gotas de orvalho se iluminam. Que ventos germinam além da montanha?Que nuvens negras […] - [Oh meu rico S. João](https://antoniocabral.pt/oh-meu-rico-s-joao/): Ao meu espírito, como aos de toda a gente, dá-lhes às vezes para fazer ventolas no passeio dominical. Sentida a guinada, desvio-me, como não pode deixar de ser. Ainda bem, se o imprevisto é consolador. Ir à Serra da Estrela e parar no caminho para o comes-e-bebes. O sol a derreter o vale apinhalado como […] - [Uma árvore](https://antoniocabral.pt/uma-arvore/): Podíamos ser como esta árvoreque dá flores,sem pensar em mais nada.O sol pousa-lhe nos ramose todas as pétalas o saúdammuito simplesmente,porque é essa a sua maneira de ser. Uma ave descreveu um círculo e passou, um rumor de asas desce pelas folhas, uma canção fere docemente o espaço. Tudo está certo.A noite virá,virá o Outonoe […] - [Canção da fronteira](https://antoniocabral.pt/cancao-da-fronteira/): Moça tão formosanão vi na fronteiracomo uma ceifeiraque cantava rosa. Foi em Barca d’Alvaquando o sol nasciauma ceifeira cantavacantando vertiatrovas na fronteiraquando o sol nascia. A saia de chita,bluzinha limão.Que coisa bonitasobre o coração!Nos ramos da luzum fruto limão. De foice na mãosuspensa dum sonhomordendo dois bagosrubros de medonho;seus olhos dois bagossuspensos dum sonho,que engano […] - [Sublimação da matéria](https://antoniocabral.pt/sublimacao-da-materia/): pouso a mão sobre a terra e digo: sou daqui, esta é a minha casa, aqui pertenço. eu sou deste país feito de barro e pedras onde à noite vêm beber as árvores, onde nascem os rios e acordam as palavras. - [Anoitece](https://antoniocabral.pt/anoitece/): Anoitece e agora, sim, a lua nova abeira-se do mar, dúvida nua antes da purificação. Uma gaivota vai seguir para lá e eu peço-lhe inutilmente que me leve consigo. O tempo deixará de existir quando a idade for uma estrela sem lados. - [A vindima](https://antoniocabral.pt/a-vindima/): Na última vindima, ao cortar as uvas que deitava nos baldes, a gente falava alto e dizia graçolas como nos anos anteriores. Isso era o que se via. Mas de facto a gente cortava bocadinhos de si própria e deitava logo punhados de terra no vinho que acabava de descer à cova. Assusta ouvir o […] - [Porretas & Bugalhos](https://antoniocabral.pt/porretas-e-bugalhos/): Se a música tem a idade dos pássaros e dos ventos na janela, esta banda também e com ela a minha infância. Bandinha de Porretas & Bugalhos, gloriosa bandinha, que ainda hoje vejo passar nas ruas em declive, voo rasante comigo dentro. Perdi muita coisa desde então e a primeira foi a noção do tempo […] - [Verde e ar puro](https://antoniocabral.pt/verde-ar-puro/): - Quando quiser, é só apitar. Apitei. O telefone não dá apenas chatices, sendo a chatice-mor as contas galopantes: dá também para combinar uns petiscos em tarde azul. A minha cara-metade a acompanhar-me no bolinhas, não vá um tipo tresmalhar-se nos regalos e na pingoleta. Já ao curvetear no Espinheiro, em terras marónicas de Candemil, o verde-terra me acariciou. E na rampinha do restaurante o casal Miranda a receber-nos de braços abertos. Dos sinceros, não dos parlamentares, ainda que estivéssemos na celeste parvónia do eloquente António Cândido, deputado dos quatro costados. - [Isso de uma personalidade poética](https://antoniocabral.pt/isso-de-uma-personalidade-poetica/): Não tenho uma personalidade poética,não quero ter uma personalidade poética,isso de uma personalidade poética é um artifício,uma abstracção,um limite,um bluff.Respiro os quatro ventosque me entram na carne, pelas palavras,revolvem, estilhaçam, refazemas vísceras e o pensamento,as vísceras do pensamento.Estou atento a todas as formas do serinfinito.Serei um grande corpo fluvial. - [Volto de ti](https://antoniocabral.pt/volto-de-ti/): Volto de ti lúcido e refeito. Eu não sabia que as tuas ervas eram feitas de música. No vento, nos passos quem acertou uma vez? - [Homem-farrapo](https://antoniocabral.pt/homem-farrapo/): Homem-farrapo, sejas tu quem fores,Até na sepultura, estou contigo.Abjuro o meu egoísmo e hoje, ofereço-teA inviolada ternura desta página,Magra flor, mas consciente, do meu cérebro.Homem-farrapo, olhado e abandonadoComo um farrapo sórdido. AparecesNa chuva ininterrupta das notícias,Criado e recriado, a toda a hora.Farrapo, sim: o que é um homemNa cela dum aljube ou dum asilo?Mas eu […] - [Donde vens a estas horas de pálpebras](https://antoniocabral.pt/donde-vens-a-estas-horas-de-palpebras/): Donde vens a estas horas de pálpebrasno luar álgido como se não viesses O vento me traz e me concebeu no teu silêncioonde o rosmaninho cresce com o corpo Mãos alvas no interior da noite esquecidasde tudo o que era dantes só projectadas As minhas mãos vêm dos mares próximosdo teu rosto irmão de sangue […] - [Pequenos agricultores](https://antoniocabral.pt/pequenos-agricultores/):   1. Elegia Estarei prestes a ser um objectoposto de lado? Quando muito, limpo de ferrugeme arrumado num cesto de recordações.Talvez um ramo a estalar,não ao peso das aves, dos frutos e da manhã.Dos filhos que emigraram e escrevemde longe, de aventura em aventura.Também eu emigrei, vou emigrando,mas para dentro de mim.Alpendre. Canafrecha cujos rodízios […] - [Já os galos pretos cantam, já os anjos se alevantam](https://antoniocabral.pt/ja-os-galos-pretos-cantam-ja-os-anjos-se-alevantam/): Os anjos pousam no recife.O recife pousa onde ninguém o vê.O que se vê são dois pontos que ao tocarem-seproduzem um excesso brevíssimo de luz,desde a curva inicial,e de que tu neste exacto momentoés um murmúrio quase inaudível.DesejariasSê-lo em cada espaço-instante desta imensasolidão?O ferro percute o bronze do sinoe o que fica é a bela […] ## Pages - [Índice](https://antoniocabral.pt/indice/) - [Direitos de Autor](https://antoniocabral.pt/direitos-de-autor/): A obra de António Cabral encontra-se protegida pelo Código dos Direitos de Autor e Direitos Conexos (CDADC) em vigor em Portugal. O que é permitido sem pedir autorização? A lei prevê algumas utilizações livres da obra, desde que cumpram certos limites. 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Nascido em Castedo do Douro a 30 de Abril de 1931, iniciou a actividade literária com o livro de poesia Sonhos do meu anjo, publicado em 1951. Ao longo de 56 anos de carreira dedicada à escrita, publicou mais […] - [Termos & Condições](https://antoniocabral.pt/termos-e-condicoes/): 1. Objecto e Âmbito Estes Termos e Condições são acordados entre o Site https://antoniocabral.pt (“Site”) e os Utilizadores e/ou Clientes do mesmo (“Utilizador”/“Cliente”). A navegação no Site, bem como a compra de qualquer livro através do mesmo, pressupõe a aceitação destes Termos e Condições por parte do Utilizador e/ou Cliente. Reservamo-nos o direito de actualizar […] - [Contacto](https://antoniocabral.pt/contacto/) ## Optional - [Agent (MCP protocol)](websites-agents.hostinger.com/antoniocabral.pt/mcp) [comment]: # (Generated by Hostinger Tools Plugin)