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Festa rija em Braga

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Festas de S. João em Braga, 1935

Braga, a Augusta Bracaria dos romanos é, como não podia deixar de ser, dona de boas tradições e ilustres figuras eclesiásticas, como S. Martinho de Dume, S. Geraldo e Frei Bartolomeu dos Mártires – permitam-me o destaque. Dar um passeio camiliano pelo Bom Jesus ou, acompanhado de uma luz verde, cruzar o arco da Porta Nova é, quando não se olha apenas para fora, sentir no rosto o bafo morno dos séculos. Se houver lugar, deixe-se o automóvel no Campo da Vinha, que tem um nome fresco, vale a pena, e histórias para contar. Aqui mesmo, no Campo da Vinha, foi que o da Casa dos Biscainhos e Deão de Braga, D. Miguel José de Sousa Montenegro, fez um S. João e peras em tempos que já lá vão. Fê-lo com toda a gala e espavento – segundo reza a crónica de Manuel Tadim – no ano da graça de 1750, bem à custa dos seus metais, não se apercebendo como o Primaz D. José de Bragança, tão dado a conter excessos, tolerou o feito. Ora!, o Primaz sentiu no rosto, sem dúvida, o excesso verde que diariamente cruza a Porta Nova, sentiu-o no belo jardim do seu paço, tão rendilhado de ameias, e distraiu-se. Pelo S. João, a natureza é toda ela um excesso. Não admira. Ou então seria o dos Biscainhos a tirar-se das canelas e a fazer peito de aço ante um príncipe que não adregava de enfrear um cabido que lhe punha a cabeça em banho-maria.

Fosse como fosse. Nesse ano, a festa foi mesmo rija e nunca as mãos doam ao deão que tirou a barriga de misérias a muita gente. Não faltaram invejas, bisbilhotices e maledicências, que estas demasias, já se sabe, são como as pedradas à macieira: só quando tem frutos. Quem é que hoje na Augusta Bracaria se atrevia ou tinha peito para uma bazófia assim? Eu que, em nome da cultura, tenho algumas dúvidas sobre os benefícios do municipalismo, tal como a megalomania o tem concebido e conservado, reconheço que em Braga, pois que o poder de há muito mudou de mãos, só há uma pessoa incarnável pelo vistoso espírito da decania: o Presidente da Câmara. Que tal, senhor Presidente? Ora veja:

“Foi Juiz deste festejo D. Miguel José de Sousa Montenegro, Deão de Braga, o qual, no Campo da Vinha, mandou fazer só às suas expensas um grandioso cerco de trincheiras, no meio do qual estava uma cozinha, na qual se assou um boi inteiro, cheio por dentro de vários recheados de galinhas, coelhos, patos, etc; dentro do cerco estava um vistoso chafariz deitando um gostoso vinho; da outra parte, uma prateleira piramidal cheia de pratos de barro do Prado, e defronte outra igual prateleira cheia de pães de trigo; no meio estavam algumas mesas. Assado o boi, se trinchou em pedaços e se repartiu à gente plebeia a som de toque de clarins, charamelas e atabales, que estavam postos nos quatro ângulos do cerco (com músicos) em lugares altos tocando os ditos instrumentos. Levou cada pessoa um prato de carne, vaso de vinho e um pão de trigo. Juntou-se muito povo a ver a distribuição: festividade nunca vista em Braga, em que se gastou muito dinheiro e não lustrou, ou quase nada, mas antes foi vituperada, e se fizeram várias sátiras. No meio do cerco estava um grande poste com uma bandeira em que estava pintada, de uma parte a imagem e figura de S. João, e da parte reversa as armas do Juiz”1.

O que deste relato me fica é a distribuição do assado aos plebeus, bem de acordo com o ditame de S. João Baptista, segundo S. Lucas: 

“O que tem duas túnicas dê uma ao que não tem; e o que tem que comer faça o mesmo”.

E fica-me ainda a vibração festiva, aquele excesso de verde a evolar-se dos jardins palacianos e a cobrir o Campo da Vinha como túnica protectora de orvalhadas. Estou convencido de que, mau grado os dichotes, a liberalidade, ostentatória – ou lá o que foi, do deão não o fez apanhar chamuscadela a mais no Purgatório. E, desde já, submeto o meu juízo ao tribunal dos leitores.

“Festividade nunca vista em Braga”, diz Tadim. Ouvem-se-lhe ecos em cada foguete e em cada lâmpada das actuais noites de S. João? Penso que sim. Está a ouvi-los, senhor Presidente da Câmara? A tradição é como repetir o suor de uma vestimenta folclórica, quando se dança: somos o que fomos para nos conhecermos melhor. Oh Augusta Bracaria do Campo da Vinha, os namorados a contarem o tempo no rosário, o dos olhos, um automóvel parado, o vinho, o trigo, o boi sacrificial! E a luz verde ininterrupta, a passar em ondas no arco da Porta Nova! Festa.

  1. In AFONSECA, António Parada De; BRAGANÇA, José De; DIAS, Heitor – Apostilas à história de Braga no século XVIII. Braga : [s.n.], 1990, pp. 32-33. ↩︎

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