Cantiguinhas do volfrâmio

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pedra de volfrâmio

“Abençoado Hitler que nos tirou da miséria!” “Olha lá, ó coiso: manda o rebanho e os leiros àquela banda”. “Catrino, pá, nunca vi ninguém fumar uma nota de cem paus! Se ma desses…”

Isto e muito mais. Era assim: disparates como balões inchados a cruzarem o céu maluco da mioleira onde a bomba do dinheiro fresco soprava, frenética. Os que hoje se aproximam dos sessenta ainda se recordam. Eu, por exemplo, que há dias fui a um morro pedreguento, a cavaleiro do Vale das Gatas, e vi tantos covões no meio do pinhal que me veio à cabeça terem ali embatido dezenas de aerólitos. “Cautela!” — avisaram-me — “Olhe que aí há um poço”. Havia. Giestas, urzes e outro bravio cobriam-no como teia de aranha. Por um triz.

A exploração de volfrâmio, quantas vezes desordenada, competitiva e malsã (“De dia vinham os donos do monte ou os que diziam que eram; de noite vinham os do pilha. Uma barafunda. Chegou a haver tiros, mortes, o diabo”), deixou marcas na terra, que lá estão e estarão, a assinalar os buraquinhos da esperança, poiso de asteróides, estes sim, nados e criados na inquietação humana. Entulhadas as bocas das minas, derruído o casario, levado no pó, é bem possível que daqui por um ou dois milénios um paleontólogo reguila lance a ideia de que ali aterraram deuses gorduchos ou dançaricaram monstros pré-históricos.

Interessam-me as marcas que o volfrâmio, com o seu cortejo de “raiteiros” (ratoneiros que faziam “raites” — do ingl. raid — aos filões), farsolas e novos ricos, deixou no folclore. Leio num semanário de Oliveira de Azeméis1, em recordação dos “anos quarenta desta centúria”, uma referência a um tal Paulo das Cavadas que “fez vida farta, às vezes exagerada e bizarra (até cigarros de notas fumou), e por isso voltou à primeira condição”. Alguém, dado a arquivar os revérberos do tempo, lhe esteve atento ao rasto:

De todos foi o primeiro,
ou é tido como tal,
que andou a ganhar dinheiro,
a cavar o mineral.

Uns versos com acento heróico, pois claro. As façanhas praticavam-nas os amantes de chinas na Mina do Pintor, Nadais, Algeriz e Ria de Frades, no que toca às proximidades da actual vila de Cesar. A febre propagou-se a todo o país. Aos velhotes ainda lhes dá às vezes para cantar, no passo de alguma saudade:

Volfrâmio é pedra escura
que muita gente procura
dentro do nosso país.
É uma pedra reluzente
que tem feito actualmente
muita gentinha feliz.

Bem significativos são dois versos que vêm a seguir: “Diz o patrão prà criada: / ponha o volfrâmio na mesa”. Como não, se o volfrâmio reluzia nas vitualhas? Muitos outros versos andaram de boca em boca, festival de tropos. Como estes, de que se apresenta a respectiva música e são comuns a diversos lugares:

Excerto de cantiga do volfrâmio: "Barroso, as nossas terras dão"

Ouvi esta modinha, há cerca de dois anos, no magusto que se seguiu ao lançamento de um livro de etnografia de Lourenço Fontes. Muitos barrosões acorreram à Cooperativa Árvore, no Porto, e o romancista Bento da Cruz é que teve a inspiração, frisando com graça que esse era um dos hinos do Barroso. Muita gente conhecia ainda a letra e cantou com entusiasmo. A memória tem vincos que o tempo, com o seu candente ferro de passar, não apaga com duas tretas.

A festa do volfrâmio: durante a Segunda Guerra Mundial, atingia de tal modo as gentes do campo que as autoridades chegaram a alarmar-se. Américo Oliveira2 publica uma recomendação da Câmara de Oliveira de Azeméis, de 9.01.1942, relativa à “saída constante de braços deste concelho para as explorações de minério e especialmente de volfrâmio”, que “afectava profundamente os trabalhos agrícolas”. Segundo o documento, a Junta e o Regedor não deviam passar atestados de bom comportamento moral e civil “aos lavradores e pequenos proprietários, que têm onde empregar a sua actividade”, bem como “a todos os indivíduos que têm por qualquer forma meios de subsistência”. Só “aos operários e jornaleiros que não possuam quaisquer bens”.

Em 1995, a já tão célebre PAC não afinaria por esse diapasão municipalista, aconselhando antes os agricultores portugueses à exploração do novo volfrâmio que, todavia, não sabem muito bem qual seja. Por isso os aconselho a enviarem uma delegação a Bruxelas, onde faça rusgas e clamores, ressuscitando a velha cantiguinha volfrâmica:

Excerto de cantiga do volfrâmio: “Olhò mineiro: trabalhava, trabalhava"
  1. Américo Oliveira, in A Voz de Azeméis, 8.03.1994. Em Covas de Barroso, cantava-se até há pouco tempo:
    Olhò mineiro: / trabalhava, trabalhava. / Todos ganhavam só ele não ganhava nada. Neste caso (“olha o mineiro”…, como em “olha o minério”…) lamenta-se o baixo salário do trabalho para uma empresa. ↩︎
  2. Idem. ↩︎

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