A fogueira de Natal

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Fogueira de Natal em Alijó por 7margens

Tenho entre mãos um livro1 de que me fizeram conselheiro editorial, função, vá lá, que ocupei em dois ou três casos apenas nesta conturbada feira de vaidades e arranjinhos que é a vida literária portuguesa. Como vi logo tratar-se de uma publicação ajoujada de figuras típicas e costumes, aceitei o encargo que, de olho malandro, me subtrai ao prazer da leitura a negregada obrigação de um juízo de valor. É um conjunto de narrativas — contos, também serve — da autoria de Manuel José Carva, escritor já falecido e que não deixou mais nenhum escrito literário. Para me abonar com a observação da fogueira de Natal, recorro a este escritor e não a outros, muitos outros, alguns bem ilustres, que sobre o tema escreveram, exactamente por ser ele um desconhecido por birra da sorte, bem madrasta nalguns casos. Adiante.

“Todos os anos era aquilo. Tudo parecia estar adormecido, mesmo se os tempos iam maus e os montes tinham pouco que dar, bastava levantar-se uma voz e a lenha aparecia na Praça, às carradas, para alimentar aquele grande e expressivo fogaréu. Então, o calor concentrado ali, em torno do largo, abria-se como um leque extenso, a desdobrar-se pelas paredes e pelas fachadas das casas, com reflexos fulgurantes, de cores rubras e amarelas.”

Era preciso fazer valer a tradição. M. J. Carva escreve em Moncorvo, mas aquecido ao lume da memória que o transporta a Alijó.2

A fogueira para todos não impede as que se acendem na pedra do lar, testemunhas de consoadas que sempre acordam nas almas sensíveis uma outra chama, a da saudade ou de um sentimento de segurança, no juntar de famílias, mas uma segurança por vezes raiada de dúvidas como a labareda de hesitações. Serão as fogueiras de Natal tributárias dos velhos ritos em honra de poderes sobrenaturais? Que sejam. Casa onde elas ardem na noite de Consoada, já ouvi dizer, é como se fosse purificada com água benta: os espíritos do mal ficam a milhas. Até ao século XVI, faziam-se no interior dos templos, sendo posteriormente empurradas para os adros com o teatro natalício. Hoje fazem-se sobretudo nos largos centrais das localidades mais dadas ao gosto das tradições e têm uma função importante: à volta delas convivem moradores e pessoas da terra que ganham a vida noutras paragens e que só aparecem uma vez por ano, pelo Natal, e ali afluem os que, antes e depois da Missa do Galo, precisam de se aquecer, ávidos também de cavaquear um pouco e ouvir umas graçolas.

Volto ao encantamento descrito por M. J. Carva.

“A princípio, da pinhoca descomunal corriam de cima a baixo, em várias direcções, rodeando os grandes toros, cordões de luz, froixos, mal inflamados, envolvidos ainda em rolos espessos de fumo, mas que se transformavam subitamente em labaredas fogosas, alambreadas”. “Crepitando alto e ruidosamente, a lenha, de vez em quando, era disparada em achas incandescentes. No auge da emoção, os mais alegres e brincalhões passavam-nas depois uns aos outros, pelo ar, tão rápido e com tal certeza de pontaria que raramente se queimavam. E, quando tal acontecia, por um descuido ou inexecução, era um troar de apupos e risos de chacota, a levantar todo o recinto: — Ó bacoco, apara lá esta, se és capaz! Lasseiro, o rapazito, saquinha dos natais a bailar-lhe na dobra do braço, desajeitadamente lhe pegava, mas logo deixava cair a brasa que, aos pedacinhos, esparzia de luz o chão enegrecido. — Ah lapouço!”

“Depois os mais velhos, fartos e desinteressados da brincadeira, com ralhos e conselhos lá conseguiam manter o ambiente sossegado.”

“Os jovens, sempre irrequietos, procuravam mais lenha por todos os cantos e quinteiros, entretendo-se outros, os mais pequenos, a jogar ao rapa e ao par-ou-pernão, trocando dos pequenos sacos os confeitos, as amêndoas e os pinhões. Depois, ouvia-se bater a meia-noite no sino da igreja, ali ao pé. O sussurro dos cânticos, vindo do interior do templo, amaciava o ar gélido e chegava convidativo, muito suave e consolador.”

Era a Missa do Galo. E a fogueira continuava a arder. Essa como as suas irmãs doutras bandas. E há lugares onde se acredita que os restos não queimados se devem guardar, tal como se faz com os ramalhetes de oliveira benzidos em Dia de Ramos: voltam a queimar-se, sim, mas durante as trovoadas, para as impontar, enxotar para longe, reforçando-se o conjuro com a oração de Santa Bárbara. Aconselho os leitores, mesmo os agnósticos e incréus, pois, pois, a fazerem a experiência que, se não der resultado, olhem, vai proporcionar-lhes com certeza um sorriso bom, nostálgico, apaziguador.

  1. CARVA, Manuel José – Retratos que eu não tirei. Alijó : Câmara Municipal, 1995 ↩︎
  2. Id., ib. ↩︎

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