Tica, tica, tica

Avatar de António Cabral
Alentejo nas décadas de 1940-60 por Artur Pastor

A necessidade de sair, por um tempinho que seja, de entre as quatro paredes das tarefas diárias e do quintalinho verde-ouro do desejo e dar a este olhos vulneráveis e pernas de carne e osso — eis o que sinto, de vez em quando, como aliás toda a gente. Gente de que hoje vou destacar os funcionários públicos, no rol dos quais me conto. E, com o duende da inflação a desaparecer-nos da esquina, o país a estugar o passo e a acertá-lo pela guarda-avançada europeia, sendo assim, o tal funcionário não só pode mas precisa de gastar. Há que gastar.  

E lá fui eu com a mulher e a prole rumo ao Alentejo que, nas dúvidas que em todo o lado me assaltam e apesar delas, ainda é na minha família uma compensação espiritual para este hábito nortenho de serranias, embora estas me sejam tão precisas como a respiração. E não tivesse eu em Montemor-o-Novo um tio-bisavô sepultado — o Lopes Praça, conhecem? Não tivesse ainda um fraquinho pelos escritores alentejanos. Não me bailasse na memória uma cantiga que ouvi em pequenino e que vou já pôr em letra de forma: 

Se fordes ao Alentejo, 
trazei-me uma alentejana  
azadinha e bem feita 
que saiba mexer a cama. 
Que saiba mexer a cama,
que saiba governar a vida. 
Se fordes ao Alentejo, 
trazei-me uma rapariga. 

Penso que o apelo feito na modinha se dirige aos ratinhos, trabalhadores que dantes demandavam aquela região, por altura das segadas. Em Odemira vi um livro1 sobre Colos (elementos monográficos), comprei-o imediatamente, depois de uma ligeira vista de olhos em que me chamou a atenção abundante compilação de modinhas (ou modas, como lá se diz e aqui pelo Norte também). Procurei logo a cantiguinha da minha infância, mas não a encontrei, o que aliás vim a achar natural, uma vez que ela não tem sentido na boca de alentejanos. O que todavia encontrei foram muitas estrofes total ou parcialmente iguais às que pelo Norte se cantam ainda. Esta por exemplo, em que há a descontar as interessantes prosódia e morfologia dialectais (monotongação em “baxo” e “nã” e a dissimilação em “à-descuras”?2 — a assimilação de “o” por “não” (não o > não no) também se verifica por vezes no Norte):  

Ó lampião da esquina, 
alumia cá pra “baxo”; 
eu perdi o meu anel, 
«a-descuras nã” no acho. 

Minha mulher passou igualmente os olhos pelo livro, caindo-lhe a sorte da abertura em “aves de capoeira” (cheguei a pensar que ela, a sorte, coincidia graciosamente com a aproximação do almoço). 

— Olha o que diz aqui sobre Colos — presenteou-me a minha cara-metade que sabe do meu gosto por estas coisas. — “O chamamento corrente das galinhas é ‘Tica-tica-tica-tica-tica’; e pouca gente diz que uma galinha cacareja: a galinha e o galo ‘cantam’”. 

Interessou-me a informação. Ora aqui está a diferença — pensei. Conhecia o chamamento “piu-piu-piu” e “chinha-chinha-chinha”, este, ao que penso, como aférese de “bichinha”. Também por aférese, no caso de pitica (diminutivo de pita), me pareceu então ter-se obtido a forma “tica”, hipótese por mim formulada, ante a ausência de qualquer explicação etimológica pelo autor de tão cativante livro. Ao fim e ao resto, tudo na vida tem uma explicação lógica, residindo a dificuldade em sabê-la correctamente, o que sobremodo acontece nestas coisas do linguajar do povo, quantas vezes esquivo à racionalidade linguística, à sua tendéncia para arrumar tudo em prateleiras muito asseadinhas. 

— Tica-tica-tica — disse eu a uma galinha que vi algures, já à entrada de Évora. Toda enfatuada, madame não reagiu e experimentei uma alteração do tratamento: — Piu-piu-piu. — Nada. Sua excelência prosseguia olimpicamente o seu caminho como a ministra dos ambientes. 

— Esta só responde a conhecidos. Ou então botasses-lhe uns grãozinhos — comentou uma das minhas filhas, já contagiada pela etnomania que me riscava o passeio. 

E passei a contemplar as coisas, a paisagem, a cidade, o além de mim. Até escrevi uma prosa com pretensão de poética: “A minha mulher diz-me que gosta dos silêncios fortes de Évora, o céu rente às casas, a paisagem, como um trovão pacífico, rolando por ali fora, até deixar os olhos à beira do infinito. Acaricio-lhe os cabelos com uma dúvida na mão.” 

Quando acabei de escrever, dei comigo a pensar que aquilo não era mais nem menos do que chamar a galinha da poesia: tica-tica-tica. 

  1. GUERREIRO, A. Machado – Colos – Alentejo : elementos monográficos. Odemira : Câmara Municipal, 1987 ↩︎
  2. Parece-me que “à-descuras” melhor se grafaria “adescuras”, pois na realidade ter-se-á verificado uma dissimilação do “s” de “às” (às escuras) em relação ao “s” da silaba “es” que vem a seguir. ↩︎

Newsletter

Textos que não encontras nas redes

* indicates required